Pato Lógico nomeada para Prémio de Melhor Editora do Ano na Feira de Bolonha
Uma entrevista a André Letria sobre os 10 anos do Pato Lógico.

O Pato Lógico completou em maio 10 anos de atividade. Por esta ocasião, entrevistámos André Letria, o seu fundador, para descobrir mais sobre a história desta editora premiada e sobre o que lhes reserva o futuro. 10 anos, 10 perguntas.

Como surgiu o Pato Lógico? 

O Pato Lógico nasceu para fazer livros diferentes daqueles que se encontravam há dez anos no mercado editorial dedicado ao público infantojuvenil. Diferentes na forma e no conteúdo, explorando temas menos óbvios e produzindo formatos que não obedeciam às imposições do marketing ou da organização de prateleiras das grandes cadeias livreiras. 

A forma de trabalhar estes livros também assentou desde o início num processo de trabalho diferente daquele a que eu estava sujeito como ilustrador freelancer. Com a minha própria editora passei a definir o tempo de trabalho à volta de um livro livre da pressão do calendário dos grandes momentos editoriais, como as feiras ou o período do Natal. Se um livro estava pronto, imprimia-se, se não estava, esperava até ficar pronto. 

E, já agora, qual é a estória que vos levou a descobrir um nome como Pato Lógico?

O nome para a editora deveria ser associado a uma personagem, deveria ter apelativo para um público jovem e deveria ter alguma dose de absurdo. Quando numa conversa de fim de almoço com a minha namorada surgiu esta hipótese, a escolha ficou feita.

Depois de o primeiro livro, Domingo Vamos à Luz, não ter correspondido às expectativas iniciais, porque continuaram com a editora? Podiam ter parado por ali…

O livro cumpriu algumas das expectativas iniciais. Foi concluído, impresso e distribuído, contribuindo assim para inaugurar a atividade da editora. Também cumpriu o objetivo de juntar poesia e futebol num livro ilustrado com 80 páginas. As vendas podiam, de facto, ter sido melhores, mas a culpa não foi exclusivamente do livro. A distribuição ficou limitada às lojas da FNAC e à megastore do Estádio da Luz, onde as escolhas dos adeptos recaem maioritariamente sobre cachecóis ou corta-unhas. 

Outro objetivo cumprido foi o de me mostrar que tinha muito a aprender sobre o negócio de edição e distribuição de livros. Com algumas lições aprendidas e algum dinheiro das vendas foi possível continuar.

Em dez anos de atividade, qual foi a aposta mais arriscada que fizeram? O que aconteceu?

Todos os livros que fazemos são apostas arriscadas. A própria existência da editora é uma aposta arriscada. 

A editora Pato Lógico, como toda as editoras de todo o mundo, enfrenta um desafio (ou um crise, como lhe quiserem chamar) por estes dias. Como é que estão a lidar com ela e que perspetivas têm para o futuro?

Para além de uma editora somos também um ateliê de design e temos um projeto de serviço educativo. O ateliê sofreu um impacto imediato com a suspensão de projetos por parte de clientes regulares. O serviço educativo, que dependia muito das visitas a escolas e bibliotecas, ficou completamente parado. Estas duas vertentes do nosso trabalho terão de ser repensadas e adaptadas a esta nova realidade de distanciamento e receio generalizado. 

O trabalho da editora é aquele que está a sofrer menos com esta crise. Os livros sempre se fizeram em reclusão e sempre se venderam pouco. De qualquer modo, estamos a investir mais na nossa comunicação digital e estamos a fazer mais vendas através da nossa loja online.

Já admitiram que a maior parte das vossas receitas vem de vendas internacionais. Isso quer dizer que a literatura portuguesa é exportável?

Não tenho dados sobre as vendas internacionais de outros setores da edição, mas conheço a realidade das editoras independentes que participam regularmente na Feira de Bolonha, a maior feira do mundo dedicada à negociação de direitos de livros infantojuvenis. Estas editoras apostam como nunca se fez antes no nosso meio editorial na divulgação dos seus catálogos e dos seus autores. E esse trabalho tem dados frutos, desde os primeiros anos de participação nesta e noutras feiras. Editoras como o Pato Lógico, a Planeta Tangerina, a Orfeu Negro ou a Bruaá negoceiam todos os anos a venda de direitos de vários dos seus títulos para a publicação no estrangeiro. Para além do que isto representa como receita, há também o aspeto da visibilidade e da abertura de novos mercados para os nossos autores, que durante muitos anos se viram privados da exposição que agora as editora independentes lhes proporcionam.

O Pato Lógico é conhecido pelo cuidado com que trata de todos os pormenores de um livro: além dos textos e ilustrações, percebe-se que o papel, os formatos, o look & feel ocupam muita da vossa atenção. Isso é muito importante ou é só importante? E porquê?

O livro é um objecto de design, cuja componente tátil contribui para uma melhor ou pior experiência de leitura. Ao atribuir à escolha dos materiais com que produzimos um livro a mesma importância que atribuímos à composição de uma ilustração ou à edição do texto, estamos a aproximar mais o leitor do livro.

E isso também quer dizer que rejeitam o digital sob todas as suas formas?

Não, de forma nenhuma. Fomos, aliás, uma das primeiras editoras, em 2011, a publicar «livros» em formato digital. (Livros entre aspas, pois uma das nossas dúvidas neste período em que nos dedicámos a estas experiências estava relacionada com a designação a dar a estes objetos, que não se folheiam e são lidos através de um ecrã.)

Hoje não temos grande interesse em continuar a explorar estes formatos. Por várias razões. A empresa com quem trabalhávamos num sistema de trocas de serviços (nós dávamos os conteúdos e eles davam a experiência tecnológica) fechou e não temos dinheiro para pagar o trabalho de programação necessário para realizar um projeto digital de qualidade. Para cada livro impresso seria necessário despender cinco ou seis vezes mais tempo e dinheiro.

Outra razão é não sentirmos necessidade de nos desviarmos do que estamos a fazer neste momento. 

Diz-se que o melhor do mundo são as crianças. Ou seja, têm os melhores clientes do mundo? Ou quem compra livros são os pais?

Os pais compram os livros para os melhores clientes do mundo. Portanto, o melhor do mundo também são os pais curiosos, atentos e disponíveis para comprar livros exigentes.  

Os vossos livros são para miúdos e graúdos e, por isso, a pergunta anterior não faz sentido?

Faz sempre sentido perguntar para quem são os nossos livros, quanto mais não seja, porque a pergunta nos dá a oportunidade de responder que não sabemos. Ou melhor, não queremos saber. Melhor ainda, queremos saber, mas só depois de estar feita a escolha. Ou seja, os livros são para quem os quiser ler.

O que gostavam que o Pato Lógico fosse quando celebrasse os seus 20 anos de atividade?

Uma editora adulta que olha para o mundo com a mesma capacidade de deslumbramento de uma criança.

O Eu Leio em Casa dá os parabéns ao Pato Lógico e convida todos os leitores a explorarem a masterclass de André Letria «Da ilustração à publicação».

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