10 livros para quem gosta de ouvir música - Parte 1
Livros sobre os bastidores da música.

Se pensa que depois de ter lido a biografia do Keith Richards já sabe tudo sobre os bastidores do mundo da música, está muito enganado. Estes 10 livros vão mostrar-lhe que com sete notinhas apenas se escrevem histórias incríveis.

This Will End In Tears, The Miserabilist Guide to Music

Adam Brent Houghtaling
It Books
400 páginas

Toda a gente sabe que a música foi feita para que possamos sofrer com algum apoio. Quem se diverte ao som da música está a deturpar o sentido original da criação. Não duvido que todos os fãs de Tindersticks, Leonard Cohen ou The Smiths estejam comigo. Para esses, este livro é uma espécie de bíblia da música de dor de corno e afins.

Além de nos apresentar toda a melancolia inscrita nas obras de Depeche Mode, Nick Drake, Dead Can Dance, Eels, Mark Eitzel, Felt, Joy Division, Red House Painters, The Sound, ou Low, o autor ainda nos sugere playlists específicas para sofrimentos vários. 

Querem um exemplo? Aqui fica uma playlist para corações partidos:

  • «Thy Rebuke Hath Broken His Heart» (Messiah) George Frideric handel, 1741
  • «Breakin’ In a Brand New Broken Heart» Connie Francis, 1961
  • «Only a Fool (Breaks His Own Heart)» Mighty Sparrow with Byron Lee and The Dragonaires, 1966
  • «Only Love Can Break Your Heart» Neil Young, 1970
  • «How Can You Mend a Broken Heart» Al Green, 1972
  • «Broken Heart» Spiritualized, 1992
  • «The Game of Broken Hearts» Tarnation, 1995
  • «Somebody Already Broke My Heart» Sade, 2000
  • «This Is What Happens When the Heart Just Stops» The Frames, 2001
  • «Welcome to Heartbreak» Kanye West feat. Kid Cudi, 2008

The Greatest Albums You’ll Never Hear

Bruno Macdonald
Aurum Press
256 páginas

© DR

A história do rock está recheada de discos que nunca chegaram às lojas ou gravações que tiveram de ser refeitas na totalidade. Este livro fala de todos os projectos que acabaram na gaveta ou que acabaram por escapar em edições pirata, colecionadas por fãs sem escrúpulos.

Diz o autor, Bruno Macdonald, que as estrelas rock deviam estar proibidas de pilotar aviões e cuidar de crianças, por três motivos: dificuldade em entender o conceito de «prazo», falta de discernimento, e muita droga.

É este triunvirato que conduz muitas das histórias reproduzidas neste álbum. Poucos fãs dos Blur saberão que o disco Modern Life Is Rubbish foi originalmente produzido por Alan Partridge, dos XTC. No dia em que decidiram mostrar as primeiras versões ao responsável da editora, primeiro certificaram-se que ele fumava uns quantos cigarrinhos de artista. Naturalmente que a capacidade de avaliação começou a levitar e tudo parecia incrível. Dois dias depois, e com a cabeça mais desafogada, Dave Balfe voltou a ouvir as gravações e soltou um melancólico «Isto é uma bela merda!».
Mas não é caso único, Brian Eno também não teve sucesso quando gravou o Marquee Moon dos Television, ou Jim Steinman, que ía destruindo uma obra seminal do rock azeiteiro, o Hysteria dos Def Leppard.

Eurovision!

Chris West
Melville House
340 páginas

Quem não gostaria de conhecer com detalhe todas as histórias por detrás do Festival Eurovisão da Canção? Este livro é para todos esses leitores, tanto um como o outro. Chris West é um desses fanáticos pelo «maior programa de música do mundo» e mostra todos os seus pergaminhos numa obra que cruza a barba da Conchita Wurst com a melhor história da diplomacia, a la Henry Kissinger.

Concedo que o livro tem graça e nos dá uma perspectiva sobre a utilização de um concurso de música duvidosa para jogadas políticas. Veja-se o caso de 1968: quem não se recorda da vitória de Massiel, com «La, La, La»? O que poucos sabem é que esta canção esteve no centro de mais uma desavença entre a trabalhadora região catalã e a opressora capital, Madrid. Joan Manuel Serrat, uma das vozes da Nova Cançó, um estilo nascido em Barcelona, era o escolhido para representar Espanha no festival. Franco não gostava da ideia de ter uma canção em catalão a representar o país. O braço de ferro só terminou em cima da hora e lá foi Massiel cantar em espanhol. Reza ainda a história que o general espanhol terá subornado os jurados para conseguir a vitória. Nunca se saberá, até porque os centralistas são capazes de tudo. Este foi o ano em que os austríacos se fizeram representar por um checo só para chatear os russos.

A cereja no topo do bolo: 1968 foi o ano de estreia, na Eurovisão, do algarvio Cliff Richard. 

E isto é só um ano, imaginem os outros 59.

Carmen

Ruy Castro
Companhia das letras
600 páginas

Ruy Castro é um tipo que irrita. Irrita porque escreve bem. Irrita porque escreve muito. Irrita porque sim. Carmen, a biografia de Carmen Miranda, é só um dos vários tijolos incríveis que o escritor brasileiro produziu e onde podemos incluir as biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha.

Mais irritante do que o autor, só as pessoas que se referem à cantora como «a pequena notável» ou «a artista do Marco de Canaveses». A biografia prima pelo detalhe e escrita solta. Não há aborrecimentos na prosa de Castro. O que fica da leitura da história de Carmen é uma mulher determinada mas incapaz de lidar com as emoções. A confiança que transparecia nos palcos e ecrãs nunca chegou para que tomasse as rédeas da sua vida amorosa e isso, em última instância, acabou por destruí-la.

Por fim há que destacar que a sua viagem de Marco de Canaveses para o Brasil comprova uma teoria célebre, o efeito borboleta (um bater de asas de borboleta pode provocar um tufão do outro lado do mundo). A 1 de fevereiro de 1908 é barbaramente assassinado El Rei D. Carlos. Os pais de Carmen, com medo do caos e incerteza que se podiam instalar no país, e a que os menos avisados chamam República, decidem emigrar para o Brasil. E assim nasce uma das maiores estrelas brasileiras de todos os tempos.

Roll Me Up and Smoke Me When I Die

Willie Nelson
William Morrow
175 páginas

Quando se fala em resiliência na música, o clichê é Keith Richards. Há muitas teorias sobre a sua capacidade de sobrevivência, quase tão épica como a habilidade para a porrada do Chuck Norris. Esta avaliação é bastante injusta, sobretudo porque deixa de fora um resistente ainda maior, Willie Nelson.

A falta de conhecimento sobre o mundo do Country faz com que este ícone da música americana seja muita vezes esquecido. Com 87 anos, mais 11 que Richards, tem na técnica do fumeiro transmontano o segredo da sua longevidade. Tal como o título deste livro indicia, Willie é o rosto mais visível da luta pela legalização das drogas leves e não tem pejo nenhum em demonstrá-lo nos lugares mais improváveis. Quem leu a sua autobiografia, Willie (1988), não esquece a passagem em que se nota a descontração com que fumou um charro no telhado da Casa Branca. Neste Roll Me Up and Smoke Me When I Die, Nelson constrói uma espécie de breviário dos seus temas favoritos: música, mulheres com quem foi casado, Texas, política, marijuana, cavalos, erva, poker, charros, meio ambiente e cigarrinhos de artista.

As opiniões deste clássico da música e do cinema, por favor ouçam a banda sonora de Honeysuckle Rose, não são as mais canónicas e poderão deixar as almas mais frágeis muito ofendidas. Filho de uma América muito ligada à cultura das armas e da caça, Willie tem uma posição intermédia no que se refere ao controlo das armas. Garante que a segunda emenda foi criada num tempo em que não havia metralhadoras e modernas armas de guerra que disparam centenas de tiros por minuto. Contudo, admite que os americanos continuem a poder ter acesso a algumas armas: “Uma pistola, uma caçadeira e uma espingarda é tudo aquilo que precisamos. Ponto final. Fim da história”. Se acha que esta visão do controlo de armas é arrepiante, então não gaste o seu dinheiro neste livro, aqui não há lugar para o politicamente correto.

Mais do que um símbolo do country ou da música americana, Willie Nelson é um símbolo de um certo conceito de liberdade à americana. Um conceito constantemente ameaçado à direita e à esquerda. Este livro é um cheirinho dessa liberdade, um cheirinho a algo verde a ser queimado mas que relaxa muito.

Gostou destas recomendações? Deixe nos comentários os seus livros preferidos sobre música e músicos e aproveite para espreitar a Parte 1 deste artigo.

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