5 livros para ler no período pós-pandemia
5 livros que nos ajudam a perceber os desafios que aí vêm.

Por João Valente.

Vivemos tempos estranhos. Apesar de termos desconfinado (mais um termo que se tornou corrente por causa do léxico pandémico) não sabemos o que o futuro e a pós-pandemia nos trazem. Já passámos o topo da montanha ou há uma segunda vaga à espreita, ainda pior que a primeira?

Fomos procurar literatura que fale do mundo que se (re)criou depois de pandemias e de apocalipses para percebermos o que vem aí. Descobrimos que os cenários podem não ser os mais animadores, mas, pelo menos, teremos bons livros para ler. 

A Estrada, de Cormac McCarthy

Se gosta de arco-íris e otimismo, A Estrada não é o livro que procura. O romance de Corman McCarthy, vencedor do Pulitzer de Ficção em 2007, conta a viagem de um pai e seu filho rumo ao Sul, uma espécie de Terra Prometida. Depois de um cataclismo que destruiu a civilização — em sentido figurado e em sentido literal — a sociedade dividiu-se em caçadores e caçados. Sem meio termo. 

A Estrada mostra que, depois do apocalipse (e o romance nunca explica o que provocou o fim dos tempos) quando quase tudo fica destruído, só podemos contar uns com os outros. Nesse momento, teremos de fazer uma escolha: ou nos juntamos ao grupo dos bons ou ao grupo dos maus. 

Y: O Último Homem, de Brian K. Vaughn e Pia Guerra

E se todos os mamíferos (homens incluídos) possuidores de um cromossoma Y morressem? Esta é a premissa de Y: The Last Man, uma coleção de graphic novels da autoria de Brian K. Vaughn e Pia Guerra. Neste cenário distópico nenhum homem ou animal macho sobreviveu, à exceção de Yorick Brown, o seu macaco de estimação, e do Doutor Matsumori. 

As razões do androcídio nunca são explicadas de forma clara. Os oito volumes (edição portuguesa) da série preferem contar o que acontece num planeta só de mulheres e animais fêmea e em que a clonagem tornou os homens redundantes para garantir a sobrevivência da espécie.

Y: The Last Man tem associado um pedaço interessante de trivia: em 2012, um grupo de alunos da Lusófona concorreu ao Fantasporto com uma curta-metragem inspirada nesta graphic novel

Estação Onze, de Emily St. John Mandel

A obra de Emily St. John Mandel relata como se retorna à vida normal após uma pandemia gripal — chamada «gripe da Geórgia» — ter devastado o mundo. Soa familiar?

Vinte anos depois deste evento cataclísmico, a memória do que foi o mundo está limitada a romances e novelas gráficas e a um misterioso aeroporto que foi transformado em Museu da Civilização, guardando milhares de artefactos de outro tempo. 

A protagonista, Kirsten Raymonde, integra uma trupe que percorre uns Estados Unidos cheios de falsos profetas que facilmente arrebanham exércitos de seguidores. A natureza cresce e esconde as marcas da destruição. Conseguirá a civilização renascer da mesma forma?

Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago

José Saramago criou uma história repleta de camadas interpretativas sobre um mundo em que um vírus misterioso cega as pessoas. E o Prémio Nobel pergunta: ao deixarmos de ver, perdemos a compaixão, a bondade e a capacidade de amar?

Para evitar o colapso da sociedade, o governo coloca os infetados em quarentena. Infelizmente, esses esforços são insuficientes. Todas as pessoas, à exceção da protagonista, acabam por ser infetadas. A maior dose de tortura, contudo, talvez caiba a esta mulher que é obrigada a ver no que se tornou a sociedade: as pilhagens, violências e abusos sexuais tornaram-se a regra. 

Um dos livros que, nas palavras do autor, maior sofrimento lhe trouxe durante o processo de escrita desafia o leitor a manter a humanidade, em tempos de Covid e em tempos de convulsão política.

O Deus das Moscas, de William Golding

Não será a  distopia pós-apocalíptica mais evidente, mas cumpre os requisitos. Um grupo de crianças sobrevive à queda de um avião numa ilha aparentemente deserta e tem de reconstruir a sociedade a partir desse momento. 

A nova realidade que emerge a partir deste infortúnio não abona a favor do ser humano. William Golding usa as crianças — o arquétipo das criaturas puras e bondosas — para mostrar que todos somos capazes de atos de extrema crueldade se as circunstâncias, e a necessidade de sobrevivência, assim se alinharem. 

Talvez O Deus das Moscas seja especialmente incómodo porque mostra que cruel é quem pratica um ato condenável, mas cruel é também quem olha para o lado sem intervir perante a injustiça. Num mundo de populismos, desigualdades e tensões crescentes, este é um desafio que se mantém. 

Que lhe parece esta lista de livros para a pós-pandemia? Acrescentava algum que faz falta? Conte-nos tudo na caixa de comentários.

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