Coleções e organizações impressionantes de livros.

Lançámos o desafio aqui, e Duarte Bué Alves não tardou em contar-nos as afinidades eletivas da sua biblioteca.

Por razões profissionais, vivi em oito casas nos últimos 20 anos, em cinco países e três continentes. A minha biblioteca andou comigo na maior parte dos casos, atravessou mares e cruzou montanhas, assou ao largo de um porto africano à espera de autorização de desembarque e teve uma ameaça de apreensão pela polícia numa capital europeia. Resistiu estoicamente a todas as adversidades. Em cada mudança, é um dos meus piores pesadelos: são caixotes que não acabam mais, listas de inventário cuja dimensão  compete com o orçamento de Estado e dores lombares que não vergam ao Voltaren.

Tenho rituais cada vez que aqueles cartões — como se diz no mundo francófono — olham para mim inertes: começo por abrir os caixotes e fazer pilhas. De um lado «literatura pura» (dividida por grupos linguísticos). Do outro, história, biografias, relações internacionais, arte, religião, viagens e ciências sociais e humanas (estas são as grandes divisões da minha biblioteca, o resto navega num fundo subsumível a uma espécie de «para que é que isto serve?»).

O mais difícil é a arrumação face ao espaço sempre insuficiente das estantes. Na literatura, venceu há muitos anos o critério da antiguidade e a estante começa com as cantigas de amigo e de amor. Depois tropeço em dúvidas: o que fazer com os «n» estudos sobre Garrett que acumulei? Quem nasceu primeiro, Pessoa ou Sá Carneiro? Às vezes troco as voltas à lógica: numa fase em que fui mais queirosiano, Eça vinha antes de Camilo. Reparo que Natália envelheceu 100 anos e está mal arrumada. No século XX é o caos: tenho o maior cuidado em quem ponho ao lado de Agustina (sei que ela preferia ficar ao lado de Tolstoi, mas não é lógico). Evito colocar Saramago na mesma prateleira. Acho que Mário Cláudio é uma boa ponte entre a amarantina e Lobo Antunes. De um sopro, seguem Sophia, Al Berto e Tolentino. Pergunto-me o que conversarão, no silêncio da noite, a discreta Fiama e o publicista Mexia. O renascentista Gonçalo M. Tavares e o aristocrata Mega. O desejo imenso do Frederico Lourenço com a inconstância do Herberto.

Não há bibliotecas isentas de pecadilhos e, como todas, a minha tem segundas filas, de livros que diríamos merecer um lugar mais discreto (na verdade são livros que tenho vergonha que as visitas vejam — não vou nomear). Já quase não há espaço para o Luiz Pacheco. Não pode ser. Será que o Cesariny se enturma com o Eugénio?

Nos estrangeiros, o drama continua. Quem vem primeiro, Stendhal ou Racine? Beauvoir casa com Malraux de uma assentada. Não encontro os Sartres. Yourcenar, afinal, é de que país? Ponho-a na Bélgica, em homenagem ao facto da minha casa de Bruxelas ter sido ao lado da casa onde ela nasceu. Na literatura de expressão inglesa, arrumo tudo na mesma fila, desde o Bangladesh à Índia, da África do Sul à Austrália. Ponho o Joyce ao lado do Wilde (sejam audazes senhores — Joyce que busque o retrato; Wilde que celebre o bloomsday). Miller é inglês ou americano? Ressuscito uma certa Mitteleuropa e junto Goethe, Broch, Walzer e mesmo Sándor Márai.

Chego às ciências humanas e separo bem filosofia e história das restantes, já vizinhas do ocultismo. Faço questão de arrumar tudo outra vez para me assegurar que Arendt e Heidegger ficam juntos. Tenho Habermas repetidos (que fixação no «espaço público»). Na história de África, autonomizo Angola, outra das minhas geografias de pouso. MPLA para um lado; UNITA para outro. Entendam-se ao menos nas prateleiras. Sei que comprei em São Tomé uma coletânea de poesia de Alda do Espírito Santo, mas não a encontro (será que o Almada gostaria que o pusesse aqui?). Junto a biografia do Amílcar Cabral à do Savimbi, mas sei que não é boa ideia.

Termino com as lusofonias, esse maravilhoso mundo onde o português se reinventa, com Raduan Nassar no Brasil e Ondjaki em Angola. Vencido pelo cansaço, arrumo Lispector ao lado de Pepetela. Desculpa Clarice, mas não havia mais espaço.

Duarte Bué Alves

Paris, em confinamento, 14 de abril de 2020

O autor

Duarte Bué Alves nasceu em Lisboa em 1974. Licenciado em direito (pecado que já expiou) e mestre em estudos europeus (noutra era). É diplomata desde 1999, tendo oficiado em Luanda, Bruxelas, Tóquio e Paris (onde vive atualmente), com breves passagens por Nairobi e Cantão. Autor de Almeida Garrett — diplomata em Bruxelas (2011) e Diplomacia Azul — o mar na política externa de Portugal (Caleidoscópio, 2017). Tem vários projetos editoriais em mãos, sobre o mar e outras coisas que depois se verá.

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