A cauda das tartarugas e os primeiros passos do andar do bêbedo, por Afonso Cruz
«O lugar mais distante do mundo é a nossa própria nuca.»

Em Ideas and Opinions, Einstein explica a concepção de um universo “finito mas ilimitado” da seguinte maneira: imaginemos uma esfera. A superfície dessa esfera é ilimitada porque não encontraríamos qualquer fronteira ou limites à nossa progressão pelo globo. Por outro lado, essa superfície é finita, e se tivéssemos uma série de discos de papel para preencher a sua área — sem que se sobrepusessem —, mais tarde ou mais cedo, essa superfície estaria preenchida por um número finito de discos de papel, ou seja, estaríamos perante uma área finita.

O universo hiperesférico imaginado por Einstein faz com que dois objectos, ao afastarem-se, inevitavelmente se encontrem. Um universo que se dobra sobre si mesmo, à semelhança do globo descrito acima, permite ser finito, mas ilimitado. Jamais chegaremos a uma fronteira. Ao afastarmo-nos estamos também a percorrer uma curva imperceptível que, no limite, nos fará retornar à origem, assim como quem dá a volta à Terra, afastando-se de casa para algum tempo depois entrar no lar pelas traseiras. O lugar mais distante do mundo é a nossa própria nuca.

Este eterno retorno (não em círculo como imaginou Nietzsche, mas helicoidal) em que o término da uma viagem coincide com o seu início é um mecanismo ficcional antiquíssimo. O último mandamento da Torá é estudar a Torá, ou seja, voltar ao princípio, recomeçar. A sua leitura é circular. Ou, se quisermos, é finita, mas ilimitada.

Existe uma maneira, no entanto, de num dado espaço finito encontrar parcelas infinitas, tal como acontece em alguns dos paradoxos de Zenão, o eleáta, que tentou provar a inexistência de movimento, sendo o mais famoso dos seus paradoxos protagonizado por Aquiles e uma tartaruga. O que acontece neste problema é que a distância vai sendo dividida de modo que Aquiles jamais chegará à meta ou alcançará a tartaruga.

A ficção, mais uma vez, não descura esta possibilidade e há inúmeros exemplos da sua utilização, desde a Ilíada a D. Quixote, sendo também prolixa (apesar de a física não ser muito complacente com estas ideias e o universo não parecer ser infinitamente divisível — será limitado na dimensão de Planck) na literatura pulp: no livro de Ray Cummings, The Girl of the Golden Atom, um químico apaixona-se por uma mulher que vive num átomo do anel que tem no dedo. Ora, este químico acredita que em todos os átomos há universos semelhantes ao nosso e que nesses universos há químicos cujos anéis têm átomos que são eles próprios universos. Este químico vive, também ele, no átomo de um anel de um outro químico. E assim ad infinitum, ou, parafraseando um dito popular, são tartarugas por ali abaixo e por ali acima (as tartarugas parecem, à primeira vista, ter uma relação privilegiada com a regressão infinita, tal como a descrição do mundo apoiado na carapaça de uma tartaruga e que culmina com a frase já referida: o mundo precisa de uma tartaruga para suster a primeira, uma terceira para suster a segunda, uma quarta para suster a terceira e por aí fora, tartarugas por ali abaixo).

Há porém, uma célebre tartaruga, a esópica, que contraria esta noção de circularidade e de regressão infinita: a da fábula chega à meta de forma recta, paulatina, austera e sem recreio, enquanto a lebre não chega ao destino. Podemos considerar cada um dos intervenientes desta história como arquétipos de formas radicais de encarar a existência. Enquanto o fio da vida, composto por um novelo que pode ser esticado ao seu máximo comprimento, a recta, e atingir uma grande distância — que define a vida da tartaruga —, pode também ser enrolado de forma mais ou menos caótica — que corresponde à experiência da lebre — assemelhando-se à dança, em que se rodopia sem qualquer desejo de chegar a algum lado, fazendo com que o fio desse novelo vital dê voltas sobre si mesmo. Caberá a cada indivíduo considerar qual a vida que vale a pena ser vivida, a que encarna o ascetismo da recta e que chega ao lugar mais distante possível (defendida por Ésopo), ou a que encarna o diletantismo, o hedonismo, a leveza, não chegando a lugar nenhum, porque qualquer lugar é uma meta (ideia anatemizada por Ésopo e encomiada por Aristipo). Há vidas orientadas para o futuro, há vidas concentradas no presente. Os escritores também se dividem entre estes dois extremos: os que correm para a última página porque essa página dá sentido ao texto (são os escritores que vêem no enredo a peça fundamental); e os outros que dançam com as palavras, pois não há página a seguir para explicar a anterior, cada página vale por si, como num passeio.

Mas uma coisa é certa, mesmo a tartaruga da fábula, infatigável na rectidão, vivendo tempo suficiente, iria por necessidade encontrar o seu destino no exacto lugar de onde partiu, porque o lugar mais distante do universo é a sua cauda.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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