«Abominação é», por Frederico Lourenço
O contexto da palavra «abominação» na Bíblia.

Jesus diz a palavra «abominação» só três vezes nos Evangelhos: uma vez em Mateus (24:15), uma vez em Marcos (13:14) e uma vez em Lucas (15:15). As passagens de Mateus e Marcos são iguais e, do ponto de vista analítico, são essencialmente uma passagem de Marcos que Mateus retomou.

Trata-se da expressão «abominação da desolação» (em grego tó bdélugma tēs erēmōseōs, τὸ βδέλυγμα τῆϲ ἐρημώϲεωϲ), que tem como referente a destruição profetizada do templo de Jerusalém.

Embora Lucas recorra muitas vezes a material presente em Marcos, curiosamente não incluiu esta frase de Jesus no seu evangelho. Por outro lado, coloca a palavra «abominação» na boca de Jesus num contexto diferente e numa sequência que é exclusiva do Evangelho de Lucas.

Jesus acabou de dizer uma frase que ocorre também em Mateus (6:24): «não podeis servir a Deus e ao dinheiro». Em Lucas (e só em Lucas) Jesus continua com a seguinte afirmação espantosa:

«Ouviram todas estas coisas os Fariseus, que eram amantes de dinheiro, e troçaram dele. E ele disse-lhes: “vós sois aqueles que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações: porque o que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus”».

No contexto da frase, não há dúvida nenhuma do que Jesus está a dizer: «o que é elevado entre os homens» e «abominação diante de Deus» é o dinheiro.

Já mais de um leitor do Novo Testamento reparou que o Jesus de Lucas tem por vezes frases que são mais esquerdistas do que as de outros evangelhos. Em Mateus (10:10), Jesus diz que o trabalhador é digno do seu alimento; mas na frase paralela de Lucas (10:7), Jesus diz que o trabalhador é digno do seu SALÁRIO. Na escravatura, como se sabe, os escravos trabalham em troca de alimento; na sociedade justa que todos queremos, os trabalhadores trabalham em troca de um ordenado.

(Existe, no entanto, um manuscrito do século IX do Evangelho de Mateus, actualmente na Bibliothèque Nationale de Paris, em que um escriba [se calhar esquerdista avant-la-lettre!] copiou «salário» em vez de «alimento» na passagem de Mateus.)

Voltando à palavra «abominação». Não é uma palavra que surja levianamente na boca de Jesus: na verdade, os evangelistas mostram quão forte ela é na própria circunstância de só duas coisas, para ele, terem merecido o rótulo de abominação: a destruição de um lugar santo; e a ganância pelo dinheiro.

(na imagem, «Dois Fariseus tentam o Salvador», por Anthony van Dyck, quadro que pertenceu até inícios do século XX à colecção dos duques de Grafton).

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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