Alternativa: Ficção, por Filipa Melo
Filipa Melo sobre Homem na Escuridão, de Paul Auster.

Na escuridão da noite, August Brill, 72 anos, vítima recente de um acidente de viação, enfrenta as insónias contando histórias a si mesmo. Num desses sonhos que o ex-crítico literário imagina de olhos abertos, o ataque às Torres Gémeas não existiu e a América está em guerra civil há quatro anos, com um saldo de 13 milhões de mortos. Para a salvar, Owen Brick, mágico profissional, 30 anos, alistado compulsivamente como cabo do exército dos Estados Unidos contra os Federais, é encarregado de assassinar, no «mundo real», o escritor que concebeu todo este enredo delirante. Homem na Escuridão, décimo sexto romance de Paul Auster apresenta-se como mais uma narrativa improvável, uma metaficção com contornos fantásticos e de périplo existencial. Porque, como o autor norte-americano defendeu uma vez (em entrevista à revista «Lire», abril 1994): «Se [os romances] fossem credíveis, por que motivo haveríamos de os ler?»

Muito longe da complexidade, da excelência e do alcance de Mr. Vertigo (1994, Asa), obra-prima sobre o mito americano, Homem na Escuridão é a resposta de Auster à obsessão literária em que se tornou o 11 de Setembro. Escritor de personagens, que apanha em queda, e de cenários parcos, próximo da mecânica dos enredos cinematográficos, Auster desiludiu a crítica com o último, e ruminante, Viagens no Scriptorium. Agora, poderiam reabilitá-lo do umbiguismo a invenção de August Brill e a condescendência terna com que trata em paralelo as confissões biográficas e a relação com a neta Katya («Dois pobres tristes, tu e eu…») e com o namorado desta, Titus Small (jovem mártir americano da guerra no Iraque).

Mas, é evidente: Auster, apoiante de Obama, quer alertar para uma guerra civil de ideias a decorrer hoje na América. Para isso, inventa uma guerra civil fictícia (no terreno e nos afetos de Brick pela esposa e pela ex-colega de escola Virginia) e concentra-a no delírio apocalíptico de um idoso que resiste a desacreditar o poder das histórias. O resultado, apesar da inegável inteligência de Auster, é um enredo preguiçoso e pretensioso. A alternativa crítica à realidade política e à História pode ser uma das maiores potencialidades da ficção, mas não se basta a si mesma sem a aplicação técnica do escritor.

Homem na Escuridão, Paul Auster, Asa, 160 págs.
SOL/29-11-2008 (in Coração Duplo)

A autora

Filipa Melo é escritora, crítica literária e jornalista. É autora do romance Este É o Meu Corpo (2001), do livro de reportagens Os Últimos Marinheiros (2015) e do Dicionário Sentimental do Adultério (2017). Assina crítica literária na revista Ler, trabalha como ghostwriter, e ensina escrita de ficção.

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