Bibliomanias: As cinquenta sombras dos livros
Livro sobre os prazeres associados aos livros.

Por Tito Couto.

Scribbles in the Margins: 50 Eternal Delights of Books
Daniel Gray
Bloomsbury (UK)
146 páginas

Um livro sobre os prazeres experimentados por todos os que adoram livros, como arrumar prateleiras, dobrar os cantos das páginas, sublinhar, encher as folhas de nódoas, livrarias antigas, etc.

E voltamos ao fetichismo. Para um fetichista o prazer está na manipulação de objectos associados ao corpo, botas, máscaras, etc., ou no desenvolvimento de fantasias, a procura de cenários inusitados e por aí fora.

Como já aqui desenvolvi várias vezes, as pessoas que gostam de livros (e não os leitores) são fetichistas. Ficam malucos com uma capa dura, com um fitilho, um baixo relevo, uma prateleira bem fornida, ler ao ar livre, ler numa tenda, ler à frente dos outros, ler com muitas pessoas, ler sozinho, enfim, já me estou a entusiasmar.

Vem isto a propósito do livro Scribbles in the Margins: 50 Eternal Delights of Books, de Daniel Gray. Trata-se de um livro inspirado na obra de J. B. Priestley, Delight, que no pós II Grande Guerra, num tempo em que os motivos para deleite não eram muitos, tirando o facto de a guerra ter terminado, decidiu escrever sobre os pequenos prazeres da vida a que os britânicos já não davam importância, como fumar no banho, ler o jornal ao domingo, o som do futebol ou fazer compras em lojas pequenas. 

Daniel Gray aplica esse princípio ao universo dos livros e elenca 50 pequenos prazeres associados directa ou indirectamente à leitura.

Para quem prazer e leitura é uma tarde na Caparica a ler os epigramas de Gustavo Santos enquanto sacode a areia dos refegos do livro, mais vale ficar por aqui até porque “a escadaria da revolta não espera por ninguém”. O leitor, ainda aturdido com o salto epistemológico entre o fetichismo e Gustavo Santos, não conseguirá identificar, assim de repente, 50 prazeres associados à leitura. Eu ajudo, até porque já li o livro do Daniel Gray.

Inspeccionar as prateleiras alheias, quem nunca? Geralmente faz-se com subtileza e sem que o proprietário dê por ela. Ninguém gosta de ser apanhado a espreitar a prateleira alheia. Será preciso algum tempo até que se ganhe confiança para olhar sem rebuço, comentar, mexer ocasionalmente e, só muito mais tarde, ganhar coragem para pedir alguma coisa emprestada. O tema prateleiras, que nos levaria muito longe, é tratado em vários capítulos, desde o arrumar das próprias prateleiras até ao conforto e serenidade que dá pôr os olhos num mar de prateleiras, seja ela uma biblioteca ou uma livraria.

No mundo do fetichismo há uma subcategoria a que os entendidos chamam parcialismo, trata-se de um foco muito específico numa parte do objecto desejado. Daniel Gray explora também essa parafilia dedicando textos ao gosto por uma bela contracapa, um imponente marcador ou uma capa dura de meter respeito. Com sentido de humor e a experiência de grande leitor, Gray toca todos os temas sensíveis ao fetichismo livresco, ler nos transportes públicos, ler numa tenda, desistir de um livro, o entusiasmo por um livro novo, o cheiro dos livros, escolher livros para as férias, espremer os livros nas prateleiras, perceber que há filmes que não devem nada aos livros, recordar um livro de infância, grandes livrarias ou falar de livros que nunca lemos.Scribbles in the margins é o kamasutra da leitura, um livro escrito só para aqueles que estão dispostos a entregarem-se completamente a esta relação. Ao livro, como ao sexo, não se pede que seja bom, pede-se que seja o que é e depois logo se vê se é bom ou não.

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