Cardiognose, por Afonso Cruz
Afonso Cruz sobre a importância das relações numa viagem.

Quando me pedem sugestões de lugares a visitar, hesito sempre, porque receio responder com paisagens ou monumentos, quando as minhas melhores experiências, seja esta ideia um estereótipo ou não, foram arbitrárias, tiveram que ver com as pessoas ou com emoções e, por isso, menos dependentes da beleza envolvente, que tendo um caráter possivelmente mais objetivo, acabam por ser secundárias em relação às ligações humanas. Plotino, para explicar o conhecimento de Deus, fala de um homem que visita uma casa e fica maravilhado com as riquezas, com os adornos, etc. só mais tarde conhece o dono da casa, e só então se esquece dos objetos materiais, da decoração e dos adornos para se maravilhar com a pessoa. Ora, as viagens têm essas características e, muitas vezes, esquecemos grandes montanhas porque novas amizades são muito mais impressionantes.

Tenho sempre alguma dificuldade em falar de um país somente pela sua paisagem, monumentos, gastronomia ou clima. Normalmente, a minha preferência recai sobre experiências humanas. Se conheci alguém interessante, se tive boas conversas, se fiz amigos, se trago histórias na mala. E, de facto, em vez de mostrar fotografias ou vídeos, é muito mais revelador partilhar um pensamento novo trazido de um país distante, tirar do bolso uma nova maneira de estar.

Kurt Vonnegut escreveu no rosto de um dos seus livros, que todas as pessoas, vivas ou mortas, são pura coincidência.

Amma Sara do deserto de Alexandria ficou sessenta anos em solidão, à beira de um rio, sem nunca olhar para ele. O motivo não é explicado nos apotegmas. Talvez fosse para evitar qualquer vaidade e por isso se privava do seu reflexo na água. Ou talvez fosse o receio da beleza enquanto tentação, a rejeição do mundo, a renúncia das coisas passageiras, como a água do rio, e a concentração nas coisas eternas. Ou talvez a sua entrega à oração fosse tão profunda que simplesmente se esquecia de tudo o resto: porque se comprazia na contemplação divina, não necessitava de nada mais além dessa imersão em Deus ou, sendo menos otimista, do caminho até Ele, o caminho pela noite escura da alma (como diria São João da Cruz). Amma Sara do deserto procurava a apatheia, uma absoluta impassibilidade perante o mundo, ou seja, prescindia da beleza da paisagem porque lhe bastava a companhia do outro (Deus, no seu caso), ainda que a beleza da paisagem seja um óbvio reflexo da sua actividade criadora. Aliás, podemos mesmo concluir que a beleza da paisagem depende da companhia e que só através de uma comunhão perfeita, espiritual, amorosa, fraterna, poderá essa beleza desabrochar. A paisagem é uma constante criação que reflecte os defeitos e virtudes dos cruzamentos humanos, das suas emoções, e uma praia com coqueiros pode ser um inferno com a mesma facilidade com que pode ser um paraíso. Não me parece que um indivíduo irado ou amedrontado ou em profundo sofrimento desfrute da beleza de um vale luxuriante, e mais facilmente o descreveria, caso o notasse, como um vale de lágrimas. Mas para os ascetas do deserto, a questão punha-se como Plotino a colocou, de que precisamos de conhecer as pessoas para esquecer o mundo, ou como enfatizavam os ascetas do deserto, usar o coração, a cardiognose (do grego kardia, coração, e gnosis, conhecimento) que era a capacidade de compreender e sofrer e amar o outro, viver as suas penas e alegrias como se fossem as nossas (é preciso notar que o coração, para Aristóteles – assim como para Sócrates e Platão –, era responsável pelos pensamentos e pela razão, servindo o cérebro para arrefecimento do corpo. Só no século XVII, praticamente dois mil anos depois, William Harvey haveria de alterar essa ideia, garantindo que o coração era apenas uma bomba mecânica.)

Posto isto, é contudo inegável que o contexto pode ser impressionante, mas tem de dialogar connosco de alguma maneira, ser recriado a partir de dentro, numa conversa entre a intimidade e as circunstâncias envolventes. O Pantanal brasileiro, por exemplo, é um desses espaços capazes de nos espantar. Diz-se que foi lá que Noé atracou a sua arca logo que as águas do dilúvio baixaram (no Pantanal não baixaram totalmente), tal é a quantidade de animais que vemos. Capivaras, antas, jacarés, sucuris, ariranhas, botos, tuiuiús, piranhas e tucanos. Quando perguntamos sobre Bonito, uma terra do pantanal do Mato Grosso do Sul, as pessoas respondem, invariavelmente, é bonito, e de facto, essa resposta, prevalecente, é também uma das mais bonitas características de Bonito. Assim como as histórias de onças que me eram contadas à noite, junto à fogueira, e a amizade que travei com pessoas e bichos (como uma arara vermelha que todos os dias pousava na minha mesa e que eu, por cortesia, lhe dava sementes de girassol) faziam com que os seus protagonistas se tornassem mais sólidos. As onças das histórias noturnas, as onças que são descritas e de algum modo celebradas, fazem com que se tornem muito mais espessas, com uma outra densidade, elevadas à condição de mitos.

Não me lembro de viagens que não sejam pessoas ou animais, não me lembro de viagens que não sejam histórias. A viagem, como a vida, é uma cardiognose. Se não bater no peito vale muito pouco.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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