Com uma gargalhada e um abraço, por Afonso Cruz
Bondade e respeito: duas qualidades que deveriam ser parte integrante das nossas vidas.

Em Bizerta, uma pequena cidade próxima da capital da Tunísia, sentei-me numa esplanada junto ao mar, na companhia do escritor tunisino Ali Mosbah. Bebemos café enquanto ele falava do período em que viveu em Portugal e de como gostava do Ribatejo. Contou também um episódio passado na Alemanha (viveu em Berlim quase três décadas) numa altura em que estava a traduzir Nietzsche para árabe. A conversar com um alemão que falava do filósofo com desdém dizendo que era um poeta disfarçado de pensador, e sabendo que Ali o estava a traduzir, perguntou se eles, os tunisinos, se interessavam por Nietzsche. Ali respondeu: «Sim, quando nos cansamos dos dromedários, entretemo-nos com essas parvoíces.»

Caminhámos depois pela cidade, visitámos dois mercados, passámos por uma feira de roupa em segunda mão, que se chama robafica (do espanhol «roupa que fica»). Ali Mosbah parou junto a um mendigo para lhe dar algum dinheiro. Começaram a falar em árabe, a gesticular, parecendo que discutiam.

Os mendigos descritos pelo escritor egípcio Albert Cossery que amiúde reclamam nas ruas a sua humanidade e desprezam a caridade (senão na quantidade necessária para suprir as mais elementares carências), exigem a quem passa que os vejam como pessoas, o que não é mais do que exigir dignidade, a mesma que devotamos a qualquer desconhecido com quem nos cruzamos. Num dos livros de Cossery, quando um homem propõe a um mendigo a possibilidade de em vez de este aparecer todos os dias à sua porta, fazê-lo somente uma vez por mês, em que lhe seria dada a soma total das esmolas diárias, o mendigo responde assim: «Não sou um funcionário (…) E a nossa amizade, o que será dela? Nem tudo se resume ao dinheiro. Gosto de falar contigo. É sobretudo isso que eu preciso.»

Pensei, ao presenciar a cena entre Ali e aquele mendigo, tratar-se de um caso idêntico aos descritos por Cossery. Com razão, em certa medida. O mendigo não queria dinheiro, queria comida, uma sandes em particular que se vendia num quiosque do outro lado da rua.

Ali Mosbah foi comprar-lhe uma dessa sandes que eram com grão de bico e harissa, uma versão de uma comida de rua chamada lablabi. Pôs-se na fila, mas quando chegou a sua vez, voltou atrás: havia mais do que uma opção e foi perguntar ao homem se queria a sandes com atum ou sem atum. Regressou à fila do quiosque, pagou a sandes, atravessou a estrada a correr e entregou-a nas mãos do outro.

Normalmente, vivemos a nossa rotina anestesiados, indiferentes ao que nos rodeia. Mas não é só o adormecimento estético que nos assola o quotidiano, há também uma blindagem de desumanidade. Raramente ultrapassamos a impressão distanciadora dos andrajos ou de uma mão estendida: de repente deixamos de ouvir a pessoa que temos à frente e, ao voltar a cara para o lado, de vê-la. Fico sempre espantado que, no mundo da rotina, da repetição mecânica, haja quem não sucumba à indiferença. Não me refiro à caridade, mas à desumanização com que paramentamos a indigência. Tratar uma pessoa, qualquer pessoa, com civilidade é um acto da mais elementar humanidade. Não é uma questão de compaixão ou bondade.

De seguida fomos a um restaurante tradicional, onde comemos peixe, pão, batatas fritas e salada mechouia. Depois do almoço fomos tomar um café junto ao mar, na periferia da cidade. Ali Mosbah apercebeu-se então que se esquecera de pagar a refeição. Bem disposto, ria enquanto abanava a cabeça e nos contava o sucedido. Voltámos ao restaurante. O dono, que não dera por termos saído sem pagar, não quis receber o dinheiro da conta.

Os dois, Ali e o dono do restaurante, riram e abraçaram-se.

Robert Musil dizia que pequenos gestos quotidianos, dignos e humanos, quando somados, têm um impacto incomensuravelmente maior do que o maior feito heróico.

Ali Mosbah pareceu-me a personificação disso mesmo, que resultaria — se fôssemos todos um pouco mais como ele — numa sociedade verdadeiramente pacífica, de respeito, em que acabaríamos os nossos dias, as nossas vidas, com uma gargalhada e um abraço.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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