Da importância das primeiras frase, por Duarte Bué Alves
Descubra a obra Eliete, pela opinião de Duarte Bué Alves.

As primeiras frases de um livro são importantes: Tolstói («Todas as famílias felizes são iguais[…]»), Proust («Durante muito tempo deitei-me cedo») ou Saramago («No dia seguinte ninguém morreu») sabiam-no bem. Dulce Maria Cardoso (DMC), uma leitora rodada, mostra isso neste seu portentoso Eliete e não deixa a coisa por meias medidas: «Eu sou eu e o Salazar que se foda». Assim, solto, duro, brutal, como uma faca que se espeta no coração do leitor e que parece ficar ali suspensa, sem que se perceba, quase até ao final, a que propósito vem essa espécie de aforismo. Seguem-se 300 páginas de puro virtuosismo. DMC já tinha atingido a maioridade literária com O Retorno e, mesmo se este não é o seu segundo romance, a verdade é que funcionou como prova derradeira. Eliete é um fresco de mulheres que se cruzam e se ignoram, se torpedeiam e por vezes se amam. É um romance do século XXI onde os engates se fazem no Tinder, os ciúmes se desencadeiam com likes no Facebook e onde as novas gerações fogem dos pais através do Instagram. Tudo se passa em Cascais: um leitor de fora lerá com gosto mas um leitor que, como eu, tenha nascido e vivido ali 27 anos interpretará com mais subtileza o que se esconde por detrás de referências aos rapazes da Torre, às casas de Birre, às famílias do Cobre, aos empreendimentos da Gandarinha, ao mamarracho do novo Estoril Sol, às lojas da Parede, às homilias do Pe. Raul (sic!) e aos lanches na Bijou. Nenhuma destas latitudes está ali ao acaso mas esconde um ecossistema próprio com regras e uma gramática indeclináveis para quem vem de fora. Sim, ser de Cascais ou vir de Cascais ajuda a ler este romance e a prova disso é que um crítico (e escritor) tão sagaz como Miguel Real falhou em perceber que Milena, ao contrário do que ele escreve (JL, 5 de dezembro 2018), nunca poderia pertencer à “elite de Cascais” porque ninguém com esse nome entra na “elite de Cascais”.

Eliete, a personagem central, que viu frustrada a sua licenciatura para acabar como agente imobiliária, constrói-se por antinomia aos personagens que a circundam: a mamã (sem nome, assim mesmo, nua de princípios), Jorge (que está em casa de roupão com estrelas e sai com os amigos a caçar Pokémons), Márcia (a filha que estuda em Itália e regressa a cozinhar “pasta alla zuca”), Inês (que se enrola com o namorado da irmã na sua ausência), a avó (desterrada do Vimeiro, com a sua “vivenda” remediada) e Duarte (o menino da Linha, moderadamente exuberante nos tiques de classe).

Eliete pode ser lido como um romance — um grande romance, embora inacabado, como o subtítulo “parte I” deixa antever — ou como um fresco de uma família portuguesa neste dealbar de século. Está tudo doseado, com o ritmo certo, e só próximo do fim (o leitor atento notará um sinal a cerca de 50 páginas do desenlace) se percebe, num arrojo imenso e surpreendente, o que faz ali afinal o ditador de Santa Comba. Quando fechamos o livro, sabemos que aquela última frase — «Não te vais apagar agora, pois não, Eliete?» — tem de ser de retórica porque somos nós, todos nós, que ficamos em suspenso com um inevitável retorno à família que vive ali para os lados do Jota Pimenta.

O autor

Duarte Bué Alves nasceu em Lisboa em 1974. Licenciado em direito (pecado que já expiou) e mestre em estudos europeus (noutra era). É diplomata desde 1999, tendo oficiado em Luanda, Bruxelas, Tóquio e Paris (onde vive atualmente), com breves passagens por Nairobi e Cantão. Autor de Almeida Garrett — Diplomata em Bruxelas (2011) e Diplomacia Azul — o Mar na Política Externa de Portugal (Caleidoscópio, 2017). Tem vários projetos editoriais em mãos, sobre o mar e outras coisas que depois se verá.

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