Descubra o livro O Macaco Bêbedo Foi à Ópera, de Afonso Cruz (FFMS)
Descubra «O Macaco Bêbedo Foi à Ópera», de Afonso Cruz (FFMS).

A obra O Macaco Bêbedo Foi à Ópera, de Afonso Cruz, foi publicada em abril de 2019 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos na sua coleção «Retratos». Venha redescobrir este título no Eu Leio em Casa com este «Sabia que?».

Sabia que…

Sabia que existe álcool no espaço? E não é pouco…

Sim, existem nuvens interestelares massivas. Perto do centro da Via Láctea, por exemplo, há uma nuvem de álcool com quantidade suficiente para encher 10^28 garrafas de vodca. Ou seja, 10000000000000000000000000000 garrafas. Pesariam cinco vezes mais do que todos os planetas do sistema solar juntos.

Sabia que o símio antepassado dos homens desceu das árvores e começou a andar em pé por causa do álcool?

Os frutos do chão são os mais maduros, os que começaram o processo de fermentação, são, portanto os mais energéticos, os que têm mais calorias, os mais desejados. A molécula do etanol (o álcool que bebemos e que resulta da fermentação), muito volátil, viaja facilmente pelo ar, sinalizando frutas muito maduras a grandes distâncias. Alguns dos nossos antepassados desceram das árvores para os recolher e começaram assim o fabuloso caminho em direção à humanidade.

Sabia que para o ser humano ter um cérebro maior e mais capaz precisou de ter um rabo igualmente grande?

O rabo é o nosso maior músculo, o tamanho dos glúteos deve a sua hipertrofia à responsabilidade de manter a verticalidade humana, libertando as mãos e permitindo o uso de ferramentas que, por sua vez, são criações de um cérebro também ele agigantado graças à energia dos frutos fermentados. Sem um rabo avantajado, que nos permita a posição recta, não seria possível ter um cérebro capaz de filosofar.

Sabia que o álcool que bebemos no vinho e na cerveja são os dejectos de outro ser vivo?

Aquilo que mais apreciamos quando pedimos uma caneca num bar são as fezes de um ser vivo, aquilo que ele expele numa orgia: álcool e gás. Ao adicionar leveduras ao mosto, elas, naquele mundo de açúcar – o seu alimento –, começam a reproduzir-se numa orgia tão histérica que em poucas horas se multiplicam um sem número de vezes, fazendo envergonhar os mais sumptuosos bacanais da antiguidade. O resultado, os restos, da loucura orgiástica, é a caneca de cerveja que empunhamos e emborcamos com prazer. A nossa saciedade é o desperdício, o lixo, as fezes, da saciedade de entidades aparentemente muito mais simples.

Sabia que a civilização surgiu graças à cerveja?

Nicholas P. Money, em The rise of yeast, diz o seguinte sobre este assunto: “De acordo com a interpretação microbiológica da História, a levedura foi o primum mobile, o autor do mundo moderno. A afirmação de que a civilização foi provocada pelo nosso amor ao álcool articula-se na teoria de que o cultivo de cereais e a sedentarização tiveram o propósito de prover matéria-prima para a cerveja. Esta ideia foi originalmente proposta na década de 1950 e contrapunha a hipótese ‘o pão veio primeiro’ como deflagrador civilizacional.

O livro

No início… houve um macaco espertalhão que desceu da árvore para comer frutos caídos no chão, mais maduros, logo, mais doces, logo, mais fermentados, isto é, com um leve cheirinho a álcool. Outros macacos se lhe seguiram e, com o aumento das calorias consumidas, foi um passo até que lhes crescesse o cérebro, a coluna se endireitasse e as mãos se libertassem. Mais um passo… e estávamos a ir à ópera. 

A teoria que posiciona o álcool na origem da evolução humana justifica a nossa insaciabilidade milenar. É dela que parte o escritor Afonso Cruz para este retrato inusitado da civilização acumuladora, gananciosa e um tanto louca na qual desembocámos. Do macaco original à criação da cerveja, que impulsionou a sedentarização e cativou Jesus Cristo, assistimos ao desenrolar das consequências do consumo de álcool. Da embriaguez à civilização, a nossa história nunca foi contada assim.

Aproveite para espreitar a apresentação deste título.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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