Droga de Balas, por Filipa Melo
Filipa Melo sobre «Balas de Prata», de Élmer Mendoza.

Primeira página do primeiro capítulo e o detetive Edgar Mendieta, conhecido como «o Canhoto», avisa: «A modernidade de uma cidade mede-se pelas armas que troam nas suas ruas.» A cidade onde o som das balas não dá descanso ao toque «Cavalaria» no telemóvel de Mendieta é México DF (Distrito Federal), capital dos Estados Unidos Mexicanos, a 12.ª economia mundial, minada pela violência. O romance chama-se Balas de Prata e é o terceiro do ficcionista mexicano Élmer Mendoza. Em 2008, deu-lhe o Prémio Tusquets e lugar entre os autores da chamada «narcoliteratura» latino-americana.

Mendieta é um depressivo, como tantos outros desses míticos lobos solitários da literatura policial americana, magoado pela perda do amor da sua vida, produto de uma cultura misógina e crente de que «o ser humano é corrupto por natureza». Todavia, Mendieta é um detetive «moderno» e, como tal, faz psicoterapia com o Dr. Parra, aprende a lidar com gadgets eletrónicos, e lê boa literatura (Juan Rulfo incluído, claro), e ouve boa música (algo passada, é certo, mas razoável), e não prega moral nem sequer deseja, de facto, corrigir os desvios do mundo. Não é tanto nele que Mendoza se revela interessante, ainda que o contraste entre o desnorte interno e a capacidade de observação da personagem apoie a técnica de enfoque do autor: dispersiva, sustentada pela velocidade dos capítulos curtos e pelo salto entre registos no mesmo parágrafo, sobrepondo diálogos sem a pontuação convencional, cruzando memórias, monólogos, descrições, ação.

Balas de Prata abre com o homicídio (incluindo uma bala de prata, castração e corte da língua) de Bruno Canizales, um reputado advogado, ativista new age, praticante de travestismo e sexualmente ambíguo. Não será despiciendo ele ser filho de um potencial candidato à Presidência, bem como o universo das suas ex-namoradas: uma, suicida e, outra, filha do líder do cartel mexicano. A unir tudo no ritmo despretensioso de um bom policial, descobrimos vários outros cadáveres e a mitologia do narcotráfico e da corrupção mexicana, sobretudo a «parte lúgubre de uma cidade decadente». Balas de Prata retrata uma certa face épica mexicana que agora não é mais do que uma narrativa crivada de balas, onde «os assassinos são os únicos que não possuem aptidão para a tristeza».

Balas de Prata, Élmer Mendoza, Quetzal

(originalmente publicado no jornal Sol)

A autora

Filipa Melo é escritora, crítica literária e jornalista. É autora do romance Este É o Meu Corpo (2001), do livro de reportagens Os Últimos Marinheiros (2015) e do Dicionário Sentimental do Adultério (2017). Assina crítica literária na revista Ler, trabalha como ghostwriter, e ensina escrita de ficção.

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