Eneias e a Eneida, por Frederico Lourenço
«(...) uma vida sábia não é termos o que queremos, mas sim querermos o que temos.»

Até parece que está tudo combinado. Na semana em que celebrámos o Dia de Camões, sai também a nova tradução da Eneida de Carlos Ascenso André; e, ao mesmo tempo, a opinião pública está ao rubro por causa de estátuas que remetem para passados imperiais.

Por curiosa coincidência, eu próprio passei o dia a pensar numa estátua. Não na do Padre Vieira, mas noutra vista «in loco» há vinte anos, que farei questão de ver novamente no dia em que regressar a Roma: Eneias levando às costas o pai e segurando, pela mão, o filho — obra-prima de Gian Lorenzo Bernini (que faz parte da colecção da Galleria Borghese), concebida para agradar a um cardeal escandalosamente apreciador de corpos masculinos (Scipione Borghese, sobrinho do papa Paulo V). E, enquanto materialização da masculinidade arquetípica, o conjunto de Bernini é extraordinário: Eneias na flor da idade; Anquises, seu pai, já velho; Ascânio, seu filho, ainda menino. As três idades do homem.

Devo dizer que amo o Eneias de Bernini. Há duas razões para o meu amor.

A primeira é que, segundo confirmam os historiadores da arte, Bernini teve duas inspirações quando esculpiu a figura de Eneias: o famoso Cristo esculpido por Michelangelo (na igreja romana de Santa Maria sopra Minerva); e o João Baptista esculpido por Pietro Bernini, pai de Gian Lorenzo (em Sant’ Andrea della Valle). Logo duas esculturas que pertencem à minha lista de favoritos.

A segunda razão é que amo Eneias. Tem sido um amor gradual. Recordo os meus tempos de estudante e a primeira aula a que assisti sobre a Eneida, dada pelo saudoso Victor Jabouille, no ano lectivo de 1985-1986. O Victor comparou Eneias com Aquiles e com Odisseu: e propôs-nos a conclusão de que, face aos dois heróis homéricos, Eneias era uma figura sem sal. Era «pius». E mais nada.

No ano lectivo de 1985-1986, não havia uma boa tradução portuguesa da Eneida (pois ela só saiu esta semana, em 2020). Eu ainda não sabia suficiente latim para ler a Eneida na língua original e, para remediar, fiz uma leitura à pressa em inglês. Achei que o Victor tinha razão na sua ideia de que Eneias era «pius» (pois isso via-se constantemente no texto), mas consegui encontrar, apesar de tudo, algum sal na figura de Eneias.

Também é preciso dizer que eu já não estava assim TÃO apaixonado pelo mentiroso Odisseu nem pelo colérico e auto-centrado Aquiles. Solidarizei-me com a situação de Eneias em Cartago, com o dilema de ter de desistir de um grande amor. Eu vivia muito a fantasia do «grande amor» quando era jovem e, aos 22 anos, já tinha tido a experiência de ter de abdicar de um namorado de quem eu gostava MESMO. Solidarizei-me com a dor de Eneias.

Os anos foram passando; o meu latim foi melhorando. Comecei a perceber o quanto significava para mim a Eneida, acima de todas as outras obras da Antiguidade. Passou-me pela cabeça (não nego) traduzi-la – mas acabei por achar Homero mais fácil. A Ilíada e a Odisseia são textos muito mais gratos, em que o tradutor sai sempre bem na fotografia. Acabou por não me apetecer traduzir a Eneida (a não ser em contexto didáctico, para dar uma ajudinha aos meus alunos no entendimento de algumas secções): a minha relação com o poema estabilizou-se com o texto em latim.

Fui ficando mais velho e fui-me identificando cada vez mais com Eneias. Depois de o meu pai ter morrido e de eu ter tentado poucos meses depois (sem me dar conta disso na altura) afogar a dor pela morte dele com uma paixão impossível, percebi o que levou Eneias a apaixonar-se por Dido pouco tempo depois da morte de Anquises. Gostei de ler mais tarde, no melhor livro sobre a Eneida publicado no século XX, a frase de que, se Anquises não tivesse morrido, Eneias nunca se teria apaixonado por Dido (R. Heinze, «Virgils Epische Technik», pp. 273-274). Exactamente.

A grande lição que Eneias nos ensina é que uma vida sábia não é termos o que queremos, mas sim querermos o que temos.

Muitas outras coisas me fazem gostar de Eneias – pelo menos nos primeiros cantos do poema. Gosto da falta de egoísmo dele. Gosto da preocupação com o pai e com o filho. Gosto do modo como finge estar feliz perante os outros refugiados troianos, para não os contaminar com a sua infelicidade. Gosto da maneira como Eneias consegue ser (como se diz em inglês) «selfless» em vez de «selfish». Consigo solidarizar-me com alguém que vive em prol de algo que ele considera estar acima dele.

O grande problema, claro, é a natureza desse «algo».

E aqui voltamos às estátuas dos passados imperiais que suscitam hoje indignação. Os deuses na Eneida (e atenção: os deuses na Eneida não são flores que se cheirem) querem coisas para os humanos que os humanos não querem para si próprios. Júpiter é retratado por Vergílio como querendo o domínio futuro dos romanos sobre todos os outros povos. E profetiza, no Canto 1 da Eneida, que assim será. Claro que, no século I a.C., quando Vergílio escreveu o poema, assim já era: portanto, à semelhança daqueles profetas do Antigo Testamento que «profetizam» factos históricos em livros escritos após a ocorrência dos mesmos factos históricos, o facto consumado do imperialismo romano é convenientemente visto como a realização pia da vontade dos deuses.

Roma domina o mundo – porque assim Júpiter decidiu. E Eneias cumpre a sua vida de infelicidade e de tristeza para que, mais tarde, Roma cumpra a sua missão: derrubar os soberbos que tenham a soberba de não querer ser súbditos de Roma; impor a paz, sim, mas a seguir à guerra; e impor, a seguir à paz, o «mōs», isto é, «o costume» (cf. Eneida 6.851-853). No nosso caso de falantes de português, o costume útil e bonito de falarmos, ainda hoje, latim.

Claro que a Eneida, composta como foi por um dos maiores génios da história da humanidade, nos obriga a fazer a pergunta: então isso do imperialismo romano é bom? Isso de subjugar os povos para depois lhes impor a língua latina (ou, como Portugal fez mais tarde, a fé católica) é uma coisa boa? Não seria mais ético deixar Roma em Roma – e não querer levá-la desde a fronteira com a Escócia até ao sul do Egipto, impondo-a de Lisboa a Jerusalém? Era preciso tingir o mapa do mundo todo com a mesma cor, a de Roma, obtida com o derramamento de tanto sangue? É tão bom assim matar, esmagar e dominar povos alheios?

Este problema está latente e não escancarado na Eneida, porque Vergílio teve a subtileza de escrever um poema que permite duas leituras bastante antagónicas: a de que a Eneida é o poema que glorifica o imperialismo romano; e a de que a Eneida critica, nas suas subtilíssimas entrelinhas, o projecto imperialista romano.

Alguns latinistas dizem que a leitura «pessimista» da Eneida não passa de uma moda que apareceu em Harvard nos anos 60 do século XX: estranho seria, de facto, se na década em que muitos intelectuais olhavam consternados para a guerra no Vietnam e para a guerra colonial portuguesa não se levantassem perguntas sobre o que Vergílio quis realmente dizer na Eneida. A Esquerda leu a Eneida como poema crítico ao projecto imperialista; a Direita leu o mesmo poema como legitimador do conceito de império. Não esqueçamos quanto o fascismo de Mussolini investiu na Eneida como cartilha italiana – à semelhança, aliás, do modo como o salazarismo investiu nos Lusíadas. Talvez com mais dificuldade, no caso dos Lusíadas, porque Camões teve a audácia de fazer ouvir, no seu poema épico, a voz do anti-imperialismo, que é a do Velho do Restelo. Em Portugal, temos o hábito de qualificar negativamente o Velho do Restelo; mas leia-se com atenção as palavras que lhe saem da boca. Tudo, tudo verdade. Camões sabia muito bem quais eram as implicações «de fazer de Lisboa nova Roma» (Lusíadas 6.7.2). E não foi inocentemente que escreveu «ilustre Gama, / Que para si de Eneias tomou a fama» (1.12.7-8).

Voltando aos anos 60: embora alguns latinistas com simpatias de Esquerda tivessem tentado olhar para a Eneida com outros olhos, continuaram as leituras imperialistas. Basta ler o valioso capítulo sobre a Eneida nos «Estudos de História da Cultura Clássica» (Volume 2) de Maria Helena da Rocha Pereira. O salazarismo em que a Doutora Rocha Pereira foi educada determinou a maneira como ela própria leu e interpretou a Eneida. E não foi a única. Ainda continuam os expoentes desse tipo de leitura, embora, obviamente, sem conotações fascistas: bons exemplos são Phillip Hardie e Anton Powell (de cujo falecimento fiquei a saber hoje).

No entanto, a leitura pessimista da Eneida não foi uma invenção «woke» dos anos 60. Já vem muito de trás. Está no Velho do Restelo, sem dúvida, leitor pessimista da Eneida; e também noutros poemas épicos do Renascimento que lidaram com o tema do imperialismo (ver o livro de Craig Kallendorf, «The Other Virgil: Pessimistic Readings of the Aeneid in Early Modern Culture», Oxford, 2007). A realidade é que a Eneida é demasiado complexa, demasiado subtil, demasiado bem pensada para se impor aos olhos de quem a lê como isto ou como aquilo. Uma crítica feita ao livro de Anton Powell é o facto de ser «unívoco» («onesided»: ver K. Galinsky em «Gnomon» 83, 2011, p. 79). O mesmo podemos dizer dos livros que argumentam o anti-imperialismo da Eneida. Penso que Vergílio não se coibiu de propor ambos os argumentos. Assim, a Eneida será o exemplo mais acabado daquilo que se chama hoje «mixed messaging»: para citar Vicky Pollard em «Little Britain», «yes but no but yes but no but».

Certo é que Eneias e os seus Troianos começam como refugiados de guerra a sofrer naufrágios no Mediterrâneo para chegarem a Itália (alguma semelhança com 2020 será pura coincidência…), mas depois, chegados a Itália, fazem papel de conquistadores. Para Roma nascer em Itália, é preciso primeiro conquistar e subjugar os italianos. Talvez o primeiro proponente da leitura pessimista, muito antes dos intelectuais em Harvard preocupados com a guerra do Vietnam, tenha sido um tal de Andrea Tordi em Florença no século XVI, que escreveu, no seu exemplar da Eneida, que a alma de Turno (o príncipe ítalo morto por Eneias no final da Eneida) parte indignada para o mundo dos mortos porque Eneias não poupara o homem que, vencido, suplicava misericórdia – homem esse a quem Eneias tirara a terra e a noiva e, finalmente, tirou a vida (ver Kallendorf, pp. 221-22).

Mesmo aqui, Vergílio recusa-se a ser unívoco: Eneias mata o autóctone a quem rouba a terra, a noiva e a vida, porque esse mesmo autóctone matara o melhor amigo de Eneias.

Eneias, afinal, não é tão insonso assim.

Quanto ao ítalo Turno, que morre a defender Itália, primeira vítima do que será futuramente o colonialismo romano: «Jaz morto e arrefece… / Malhas que o império tece» (Pessoa).

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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