Então Queres Ser um Agente Literário
Chama-me Jerry Maguire ou 99 razões para (não) entrares tão depressa nessa noite escura.

Por Paulo Ferreira e Tito Couto.

Falar línguas, percorrer o mundo, um amor em cada porto, tomar o pequeno-almoço em Lisboa, almoçar em Paris e pousar a cabeça na almofada em Varsóvia. Ser convidado para as melhores festas da feira, seres considerado importante em pelo menos 4 línguas. Esquece, não é nada disto. Se queres ser agente literário em Portugal, prepara-te.

34. Prepara-te para ires a uma feira internacional de direitos e os editores nacionais estarem a comprar no lugar de vender os livros que publicam (nomeadamente em feiras apoiadas pelo Estado Português).

35. Prepara-te para entrares no stand português de uma feira de direitos e veres que não há um só livro de um autor português que publicam (nomeadamente em feiras apoiadas pelo Estado Português).

36. Prepara-te para receberes um diplomata português no stand de Portugal e para que ele te diga: «Isto não tem jeito nenhum de pavilhão. Faça-me lá um estudo para melhorar isto».

37. Prepara-te para ninguém perceber por que motivo quando estás a trabalhar olhas para os livros como produtos.

38. Prepara-te para que o hotel naquele dia não tenha shuttle que te leve à feira e tenhas de caminhar três quilómetros até lá.

39. Prepara-te para teres registado no teu telemóvel os números de telefone de taxistas teus amigos em pelo menos 3 continentes de uns bons 20 países.

40. Prepara-te para as malas se perderem, estares 3 dias sem a tua escova de dentes e acabares a comprar dia a dia (esperando que a mala chegue) mais uma peça de roupa interior, mais uma camisa, mais um par de meias.

41. Prepara-te para te alertarem que o melhor é não beber água da torneira, nem sequer para lavar os dentes;  ah, e duches só de boca bem fechada.

42. Prepara-te para após dois e-mails de confirmação, um telefonema de confirmação na semana anterior, o editor (ou o adido cultural, ou o tradutor, ou o jornalista) não comparecer porque tinha a festa da escola da filha e não podia faltar.

43. Prepara-te para, depois de te teres levantado cedo, comido mal ao pequeno-almoço, ter apanhado um autocarro e um elétrico, dois quilómetros de caminhada, chegares às instalações da editora a horas, mas o editor ainda não ter chegado — e não ter a certeza se tínhamos mesmo marcado para aquele dia.

44. Prepara-te para ires ao stand português de uma feira do livro e veres que afinal a literatura portuguesa contemporânea é o Camões, o Eça e o Garrett.

45. Prepara-te para fixar esta expressão: It’s not economically viable.

46. Prepara-te para os telefonemas e e-mails irritados, ofensivos — ninguém consegue entender porque não vendeste os direitos para os Estados Unidos com contratos de (pelo menos) 5 dígitos.

47. Prepara-te para ter autores que não percebem porque não consegues vender os seus livros com 20 anos (e se recusam a dar-te uma novidade para ires vender).

48. Prepara-te para saberes que os editores acham que os escritores portugueses não contam histórias, só estão preocupados com as frases de efeito.

49. Prepara-te para as gargalhadas quando dizes que representas um poeta (ou um dramaturgo).

50. Prepara-te para que te digam que os contos não vendem (nem as novelas, nem a poesia, nem o teatro, nem o ensaio).

51. Prepara-te para que os teus colegas se riam de ti por seres tão organizadinho.

52. Prepara-te para teres reuniões em cinco línguas num só dia (apesar de só falares quatro).

53. Prepara-te para teres 20 reuniões por dia em línguas diferentes, apresentando livros completamente diferentes.

54. Prepara-te para explicar ao autor que escrever um livro sobre um homem que quando acordou se viu transformado numa barata talvez não seja a coisa mais original ou oportuna (referir os limites da intertextualidade — palavras com pelo menos 4 sílabas impressionam sempre —  talvez seja um caminho).

55. Prepara-te para explicar que um livro onde não acontece nada é um exercício arriscado e muitos são os que tentam, mas poucos os que conseguem.

56. Prepara-te para explicar que só há «uma Elena Ferrante», um «Herberto Helder», um «Salinger»; ou três, vá, e que há que estar disponível para promover o livro.

57. Prepara-te para deixares de ser convidado para as vernissages dos editores porque foste demasiado «inflexível», «frio», «duro», «calculista», «mercenário», «pouco ético» na última negociação.

58. Prepara-te para editores que falam com os autores diretamente, mesmo sabendo que eles têm um agente.

59. Prepara-te para receber mensagens insultuosas em que do outro lado o autor não entende porque raio o seu livro (com cinco anos) não está exposto no quiosque de jornais de Fafe (mas estava lá o livro do Rodrigues dos Santos e do Sousa Tavares).

60. Prepara-te para explicar a autores que sim — os editores têm de fazer dinheiro.

61. Prepara-te para explicar a editores que sim — os autores têm de fazer dinheiro.

62. Prepara-te para explicar a autores e editores que sim — os agentes têm de fazer dinheiro.

63. Prepara-te para ter autores que não percebem porque ainda não leste os 3 milhões de caracteres que te enviaram antes do almoço.

64. Prepara-te para que os editores noutro fuso horário não percebam por que não lhes estás a responder aos e-mails — mas esta gente tem melhores coisas para fazer às 23.45 de uma sexta-feira?.

65. Prepara-te para trabalhares com livros num idioma para os quais existem poucos tradutores, poucos leitores que possam dar um parecer a um editor.

66. Prepara-te para reunires com editores que acham Portugal exótico, Olé.

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