Então Queres Ser um Agente Literário
Chama-me Jerry Maguire ou 99 razões para (não) entrares tão depressa nessa noite escura.

Por Paulo Ferreira e Tito Couto.

Falar línguas, percorrer o mundo, um amor em cada porto, tomar o pequeno-almoço em Lisboa, almoçar em Paris e pousar a cabeça na almofada em Varsóvia. Ser convidado para as melhores festas da feira, seres considerado importante em pelo menos 4 línguas. Esquece, não é nada disto. Se queres ser agente literário em Portugal, prepara-te.

67. Prepara-te para o melhor que o outro lado tem para te contar sobre Portugal, o Ronaldo, o Mourinho e a Mariza.

68. Prepara-te para acharem que ainda usamos todos bigode, as mulheres não se depilam e andam todas de preto.

69. Prepara-te para que achem que não sabemos ler (nem escrever), surpreendidos com os nossos autores terem a dentição completa.

70. Prepara-te para aprender a saudar alguém em dez línguas diferentes.

71. Prepara-te para que os teus colegas te gozem por preferires ir para uma reunião de trabalho (ou descansar na tua pensão de duas estrelas), no lugar de ires a uma festa da feira, a uma grande festa da feira, mas que não tem ninguém com quem possas vir a fazer um negócio.

72. Prepara-te para os fusos horários e para não teres ninguém com quem falar às 3 da manhã no meridiano de Greenwich.

73. Prepara-te para mudares de fusos horários de -6 para +5 e por isso quereres dormir de dia e descansar quando o sol se levanta.

74. Prepara-te para a má comida dos hotéis e não te apetecer nada comer nachos com leite.

75. Prepara-te para chegares ao centro de direitos às 9.00 e não haver vivalma até às 13.00, tudo porque, explicam-te devagarinho, os verdadeiros negócios são feitos à noite em discotecas com bar aberto.

76. Prepara-te para conheceres todas as marcas de repelentes (em spray, pulseira, roll on), e de seres alertado para o zika, dengue e para a febre amarela (não te esqueças de ler todos os folhetos informativos — esta indicação não dispensa a consulta do teu médico).

77. Prepara-te para a frustração. Para o não, dito de várias formas, expressões e várias línguas, a diferentes horas e fusos horários.

78. Prepara-te para explicar que isto é um negócio, que só há cultura e criatividade no momento da escrita e da fruição do livro.

79. Prepara-te para ires a feiras e festivais em que não consegues sequer perceber o que está escrito na capa dos livros.

80. Prepara-te para falares com autores que acabaram de se apresentar e não entendem por que razão nunca leste toda a sua obra.

81. Prepara-te para perderes a vista a pessoas (que até pensavas que eram teus amigos) só porque não aceitaste representá-los.

82. Prepara-te para o convite para jantar, para tomar café, para ires às suas festas de aniversário, só porque querem ser representados, mas na verdade nem gostam assim tanto de ti (e não te espantes se começarem os rumores nas tuas costas).

83. Prepara-te para a resistência dos autores que não percebem para que serve um agente literário quando podem tratar tudo diretamente.

84. Prepara-te para a resistência dos editores que não percebem para que serve um agente literário quando podem tratar tudo diretamente.

85. Prepara-te para falares com editores e autores que não perceberam para que serve um agente literário e agora estão com um problema entre mãos, a ver se consegues solucionar aquele embrulho.

86. Prepara-te para autores que aceitam falar com os editores diretamente, mesmo tendo um agente, e depois te pedem para resolver questões que não conseguiram “ultrapassar”, mas que “não se querem chatear com o editor”, que é amigo deles; mas nota: tu podes incompatibilizar-te à vontade; e claro que não te terão problemas a dizer “vê lá o que consegues sacar mais”.

87. Prepara-te para autores que combinam tudo com o editor e depois te tratam como se fosses o secretário deles (e nota: também és isso).

88. Prepara-te para te pedirem para dares uma palavrinha.

89. Prepara-te para regressares ao hotel, ao fim de um dia de reuniões, carregado com livros sobre gente abduzida por extraterrestres, monografias sobre Vladivostok e a correspondência entre dois poetas mongóis.

90. Prepara-te para que os autores saibam tudo sobre a escrita, mas nada sobre o mercado editorial e não percebam por que raio não lhes conseguiste aquele contrato.

91. Prepara-te para que os autores achem que podias ter dormido menos uma noite, comido menos uma sandes, dormido no avião.

92. Prepara-te para que ninguém perceba por que razão decidiste abdicar de vinte fins-de-semana num ano.

93. Prepara-te para receber convites de câmaras e bibliotecas para sessões com os teus autores, desde que pagues todas as despesas inerentes.

94. Prepara-te para te automotivares. Se não o fizeres, ninguém o fará.

95. Prepara-te para te desmarcarem reuniões, ou simplesmente não aparecerem, quando aparecem trazem caras de enfado, gente que não te ouve, que responde a perguntas que não fizeste e faz perguntas que não queres que te façam.

96. Prepara-te para seres insultado devidamente se alguma vez ponderares escrever uma tábua de conselhos a quem quer entrar na profissão.

97. Prepara-te prepara-te prepara-te.

98. Prepara-te para que te digam que, ainda assim, não estás a fazer um bom trabalho.

99. Prepara-te para, ainda assim, no meio disto tudo, haver autores que te respeitam (e pelos quais vale a pena passares por tudo isto), editores que te consideram (e que tu admiras), fazeres negócios, bons negócios, ganhares dinheiro, raramente bom dinheiro. Show me the money.

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