Escrever como o generalíssimo Kutuzov, por Afonso Cruz
«Fernando Namora contraria ainda a ideia de que a qualidade só é acessível às elites (...).»

“Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.” (Marketing, Fernando Namora)

Namora dizia que não escrevia para agradar ninguém, mas que “sendo propósito da arte dirigir-se a alguém (pois de contrário seria expressão privada)”, é normal que se imagine ou identifique o leitor. Ao fazê-lo, Namora chega à conclusão que o escritor se dirige a um conjunto de leitores ao mesmo tempo que se dirige a cada um em particular. Não é raro, para quem lê, sentir que o livro foi escrito especialmente para si. A consciência colectiva reflectida no livro é ao mesmo tempo consciência individual. Em De Visione Dei, Nicolau de Cusa usa como alegoria uma experiência comum, provocada pela fruição de certas pinturas. Muitos sentem quando olham para alguns retratos que o olhar do retratado os segue. Esse olhar dirige-se simultaneamente a todos, mas também se fixa em cada um. Nicolau de Cusa usou esta ideia como argumento teológico, mas serve perfeitamente para a descrição do impacto possível de um livro: atingir vários e cada um. Ser o reflexo de um tempo e de uma cultura e ao mesmo tempo olhar nos olhos de cada leitor, com todas as suas diferenças e manias, e fazê-lo sentir a estranha cumplicidade de um amigo de longa data. Esta mesma coincidência de opostos, o todo e o particular em simultâneo, também se verifica no tempo, e alguns livros perduraram e atravessam-no, imunes às inevitáveis mudanças sociais, permanecem modernos. Fernando Namora contraria ainda a ideia de que a qualidade só é acessível às elites, assim como a postura pudica e casta, mas relativamente disseminada no seio dessas mesmas elites, de que a literatura deve alhear-se do prazer e ser praticada com solenidade e recato pudibundo: “Aqui, todavia, se põe de novo o debatido problema da legibilidade de uma obra, quanto ao preconceito aristocratizante de que o génio não é para consumo corrente (então porque o foi em Stendhal, Tolstoi, Camus, Malraux, Huxley, Soljenitsin etc.?) e de que apenas a mediocridade é aliciadora e abordável. Decerto para escândalo de alguns, é o citado Barthes que vem agora afirmar que a categoria literária não pode nem deve ser sinónimo de «enfado», que, pelo contrário, o «prazer» dado por um texto é meritório, revolucionário e mais coisas que não ouvíamos dizer há anos. Deste modo, a existência de um «público» (feio palavrão…) possa de novo a importar como parâmetro estimável, uma vez que esse público, se existe, é porque a obra, feita de dores e esperanças comuns, de acertos e desacertos com o seu tempo, possui a vitalidade a que poderia aspirar.” (Encontros, Fernando Namora)

Dito isto, há que sublinhar que esse prazer não é uma concessão que o autor faz ao gosto do público, mas uma consequência possível da literatura (assim como o Sol não brilha com o propósito de nos iluminar). E tampouco se deve concluir que todos os livros geniais são acessíveis, mas sim que a inteligibilidade não é sinónimo de génio ou falta dele. De resto, Namora cultivava uma inclemência implacável e rigorosa para com o seu próprio trabalho. Quando lhe perguntaram se ele emendava e reescrevia ou se fixava na forma inicial, ou seja, se era elaborador ou impulsivo, Namora respondeu assim: “Não me parece que um escritor «impulsivo» seja necessariamente aquele que se fixa na forma inicial. O escritor pode ser impulsivo e, no entanto, sujeitar depois essa impulsividade a um paciente trabalho de afinação.” Mircea Cărtărescu, porque a respeito do ofício de escrever as perguntas repetem-se, respondeu de forma semelhante a essa questão — devendo qualquer coisa à alegoria platónica — e comparou a escrita, a sua, a um cavalo e ao respectivo cavaleiro. A parte impulsiva, animal, convive sem paradoxo com a outra. Namora, menos sucinto, desenvolve um pouco mais o tema: “Por outro lado, há livros que se escrevem quase de rajada e outros que pedem uma feitura laboriosa. No meu caso, e abstraindo, por conseguinte, do modo como certos temas actuam sobre o escritor, tenho evoluído acentuadamente para um trabalho pausado. Reescrevo quase tudo, as vezes que entenda necessárias. Sou talvez um impaciente-paciente — e não se veja paradoxo na definição. Uma figura magistral de Guerra e Paz, o generalíssimo Kutuzov, que acabou por vencer Napoleão apenas com as armas da astuta perseverança, dizia que há dois guerreiros invencíveis: a paciência e a porfia. Ora, escrever exige esses dois guerreiros. Escrever é uma inesgotável paciência. Creio que a tenho tido. Os malogros ou as injustiças doem-me, mas não me vergam. Pelo menos até hoje. Ao reconhecer erros cometidos, literários ou outros, a minha reacção mais constante é recomeçar tudo de novo.” (Encontros).

Confrontado com uma outra pergunta que também é repetida à saciedade, quais os paralelos entre a medicina (poderia, com outro escritor, ser a música, a arquitectura, o direito, etc.) e a escrita, Namora encontrava essas intercepções e tangências. No livro Retalhos da Vida de um Médico, sobre um parto, escreveu o seguinte: “− Se quer fazer alguma coisa, senhor doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa no osso da rabadilha.

Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.” É possível que Namora sentisse que também há livros que ficam presos em ossos e exigem a porfia invencível de um generalíssimo Kutuzov.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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