Estátuas ou educação, por Afonso Cruz
«A crença na possibilidade de uma estátua poder ganhar vida era tal, que estas poderiam ser levadas a tribunal e julgadas.»

Quando visitei o museu de Cartago, em Tunes, disseram-me que as cabeças das estátuas eram feitas à parte para que se a pessoa retratada morresse, caísse em desgraça ou fosse exilada, se poder aproveitar o corpo, mudando somente a cabeça. Reparei que as estátuas tinham o nariz partido. Disseram-me que os conquistadores partiam os narizes, porque os narizes eram símbolo de arrogância. Não sei se a explicação é convincente. As estátuas não eram destruídas, o que me parece sensato, mas desfigurá-las por despeito não parece coincidir com a vontade de as preservar. Imagino com mais facilidade o receio que essas representações dos antigos senhores da cidade inspiravam na mente dos conquistadores, o medo irracional de que pudessem ganhar vida. Assim como Elohim quando decidiu criar Adão lhe soprou ar pelas narinas, talvez o acto de partir o nariz das estátuas tivesse o efeito oposto: impedia a entrada da alma. Partir o nariz impossibilitava que ganhassem vida (antigamente a alma estava relacionada com o ar: ainda usamos expirar para morrer. O termo grego para alma, pneuma, é a raiz de vários vocábulos relativos ao ar: pneumonia, pneumático, etc.).

A crença na possibilidade de uma estátua poder ganhar vida era tal, que estas poderiam ser levadas a tribunal e julgadas. A um dos mais afamados atletas gregos, chamado Teágenes, foi erigida uma estátua na sua terra, em Tasos. Um atleta rival tinha por costume açoitá-la até que um dia esta lhe caiu em cima e o matou. O filho da vítima levou a estátua a tribunal. Acusada de homicídio foi considerada culpada e condenada a ser atirada ao mar.

Sempre houve alguma ambivalência relativamente às estátuas, por um lado uma certa impotência, a certeza de que nada podem, por outro o temor ou a esperança de que possam ganhar vida. Há vários exemplos sobre a questão da impotência, servindo até como argumento teológico.

Conta-se (no Midrash Bereshit) que Abraão, ainda criança, decidiu partir os ídolos que o pai tinha na loja, e o pai, irritado, perguntou-lhe quem fez aquilo. Abraão respondeu que um dos ídolos pegou no martelo e partiu os outros. O pai acusou-o de, obviamente, estar a mentir, que seria impossível as estátuas fazerem isso. Abraão responde: Se os ídolos não são capazes de fazer nada, se são absolutamente impotentes, porquê adorá-los?

Clemente de Alexandria argumenta contra o politeísmo dizendo que os pássaros defecam nas estátuas de Zeus, de Asclépio, de Atenas, de Serápis, mostrando total desrespeito pelos deuses (esta ideia, apesar de exigir estátuas incapazes de se defenderem dos dejectos dos pombos, centra-se sobretudo na sua indiferença. De algum modo, esta foi a mesma ideia que António Aleixo usou num dos seus poemas: Uma mosca sem valor/ poisa, c’o a mesma alegria,/ na careca de um doutor/ como em qualquer porcaria.)

Diógenes, o cínico, treinava a mendicância com estátuas, pois quando pedia dinheiro às pessoas que encontrava na rua obtinha exactamente a mesma resposta.

Por outro lado, o temor ou o desejo de que as estátuas possam ganhar vida é bastante mais interessante enquanto hipótese, atravessa o problema mente/corpo, e, especialmente com o surgimento da inteligência artificial, um tema bastante actual.

Do mito de Pigmaleão a Pinóquio, da criação de Adão a partir de barro ao golem, a ideia é a mesma, dar vida à matéria inanimada. Oskar Kokoschka tentou o mesmo com a boneca que mandou fazer à imagem da mulher que amava, Alma Mahler.

Clemente de Alexandria conta um episódio mais ou menos parecido, na essência, ao de Kokoschka. Cleisofo apaixonou-se por uma estátua e, num acometimento lúbrico, fechou-se no templo onde ela estava, tentando ter sexo com a imagem de mármore (não conseguiu devido à dureza e à frieza da pedra e acabou por satisfazer a luxúria com um bocado de carne). Esta pulsão por estátuas e bonecos tem um nome: agalmatofilia.

Nos casos acima há uma tentativa, bem ou mal sucedida, de dar vida através do amor ou, mais interessante, através da aprendizagem, da educação. Aristóteles vislumbrou isso mesmo. Quando lhe perguntaram qual a diferença entre uma pessoa com educação de uma sem educação, respondeu que é a mesma que distingue um vivo de um morto.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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