Esticar o pescoço antes de morrer, por Afonso Cruz
As aventuras de Afonso Cruz em La Paz.

Aterrei em La Paz no meio da fiesta del Gran Poder, já no final do dia, encontrando as ruas cheias de gente ébria de chicha, cerveja e religião. Escolhi um hotel junto ao mercado das bruxas. O quarto não tinha fechadura, em vez disso, havia um enorme buraco na porta, da largura do meu braço. A minha ideia inicial era visitar algumas aldeias das terras altas, mas infelizmente, percebi que dificilmente arranjaria transporte para ir e vir. Optei, então, por descer até às terras baixas. Como não tinha as vacinas em dia, perguntei na receção do hotel se era uma zona perigosa de se visitar sem vacinas. No meu espanholês: sin vacinas. O rececionista gargalhou, vacinas, em castelhano, não são vacinas. No fundo, perguntava se era seguro viajar sem penico. E corrigiu-me: vacunas. Apanhei um autocarro que descia a chamada “estrada da morte”, titulada assim porque não era propriamente a viagem mais segura. Catorze horas para descer de La Paz, de uns dramáticos quatro mil metros até à base dos Andes. A estrada era sinuosa, cabia apenas um carro, a maior parte do trajeto era de terra batida. De um lado, a parede de montanha; do outro, um abismo verde. Quando um carro subia era preciso fazer marcha-atrás até encontrar um local em que pudessem passar os dois. Essas manobras eram sempre acompanhadas de uma enorme histeria. As mulheres levantavam-se, corriam para a janela que dava para o abismo e gritavam enquanto o autocarro fazia a marcha-atrás. Uma galinha comia-me a alça da mala que levava comigo. Quando, enfim, chegámos às terras baixas, o autocarro vazou consideravelmente e fiquei sozinho na fila de trás. Tentei deitar-me e dormir, mas tinha anoitecido e a janela, com os socalcos da estrada de terra batida, estava sempre a abrir-se. Deitava-me, a janela abria, sentia o vento frio, levantava-me, fechava a janela. Um ritual que demorou horas.

***

A certa altura, fiquei parado na estrada porque um pastor decidiu levar o seu rebanho pelo meio do alcatrão. As ovelhas, com os automóveis, ficaram em pânico, encostavam-se ao arame farpado da berma, mas não paravam de comer, e, mesmo naquela situação, continuavam a mastigar a erva que encontravam. Antes, havia testemunhado uma cena idêntica, mas mais dramática, ao ver um veado ser abatido, e que, quando caiu no chão sangrando com a barriga aberta, continuava a comer esticando o pescoço para tentar chegar a mais ervas. Fiquei impressionado com o facto de um animal, ferido de morte e nos seus últimos momentos, agir assim. Desejaria que, para um homem, o cenário pudesse ser outro, e que, ferido de morte, este estendesse o pescoço, não para apanhar um amendoim com a língua, mas para ler mais um verso de Celan. Mas para isso, precisamos de ter as necessidades mais básicas satisfeitas. Portugal não tem, neste momento, ministério da cultura. Somos dos países da União Europeia onde mais se trabalha e onde menos se lê. Percebe-se: somos mãos, não somos cabeças. Olham para nós como máquinas de fazer coisas, fabricantes de produtos amorfos que outros sabem ou souberam inventar. Veem-nos como aquelas ovelhas à beira da estrada, que quando esticam o pescoço é para tentar chegar a mais um bocado de erva. Quando nos tiram tudo da mesa, de cima da toalha, não sobra nada, porque quando tiram isso, ficamos com a cabeça vazia, somos veados moribundos a esticar o pescoço para chegar à erva mais próxima. Os filósofos, os artistas, os escritores só existem depois de se ter algumas coisas garantidas. Há uns versos de Saadi de que gosto muito: “Se eu tivesse dois pães, trocaria um deles por uma flor.” Só nessas condições poderemos esticar o pescoço, não para comer um bocado de erva, mas para ler um parágrafo de Dostoievski.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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