Glória e Ruínas, por Filipa Melo
Filipa Melo sobre «Hotel Majestic», de J. G. Farrell.

Aberto sobre o mar, na costa sudeste irlandesa, o imponente Hotel Majestic há muito que perdeu a sua glória. Em 1919, quando o major inglês Brendan Archer ali chega, não passa de um «imenso edifício errante», pelo qual navegam personagens excêntricas, entre quartos desertos, tédio, pó e «uma vasta e narcótica inércia campestre». Rapidamente engolido pela atraente estranheza do lugar e dos hábitos dos seus habitantes, Brendan não consegue decidir-se a regressar a Londres. Nem mesmo quando já é absurdo, ou impossível, o compromisso de noivado com a filha do proprietário, Angela Spencer, assumido antes de partir para a Primeira Guerra. Hotel Majestic, escrito pelo anglo-irlandês James Gordon Farrell (1935-1979), parte de um microcosmos decadente para reproduzir a queda do Império Britânico, com epicentro nas sublevações independentistas irlandesas de 1919-1921.

J. G. Farrell é um dos únicos três autores (com Peter Carey e J. M. Coetzee) que conquistaram duas vezes o prémio britânico Booker. Particularidade ainda maior: Hotel Majestic, publicado em 1970, só foi premiado em 2010, com o Lost Man Booker Prize, destinado a suprir injustiças motivadas por uma alteração do regulamento ocorrida 40 anos antes. Em vida, Farrell (que morreu num acidente no mar, aos 44 anos) recebera o Booker pelo segundo volume da sua Trilogia do Império, intitulado O Cerco de Krishnapur (também publicado pela Porto Editora em 2012). Hotel Majestic, o primeiro volume, cativa pela gestão exímia da ironia inteligente, elegante e melancólica com que o romancista vinca pormenores de observação e tece enfim uma ampla análise histórica.

Como na complexa geografia progressivamente desabitada do hotel dos anglo-irlandeses Spencer, a Irlanda deste romance é um puzzle que se desmembra e desliga de qualquer pretensão majestática. Agora, cada um «tem de escolher a sua tribo» e o olhar sóbrio e aparentemente desligado do major Brendan, bem como a sua insólita adoção daquele país, ajuda-nos a compreendê-lo. O estilo brilhante de Farrell coloca-o ao lado de Jane Austen na atenção ao mundo afetivo de cada personagem e ao jogo social que a impele para a disfunção. Cada página de Hotel Majestic é uma deliciosa filigrana narrativa; na verdade, intemporal. 

Hotel Majestic, J. G. Farrell, Porto Editora, 416 págs.

(originalmente publicado no jornal Sol)

A autora

Filipa Melo é escritora, crítica literária e jornalista. É autora do romance Este É o Meu Corpo (2001), do livro de reportagens Os Últimos Marinheiros (2015) e do Dicionário Sentimental do Adultério (2017). Assina crítica literária na revista Ler, trabalha como ghostwriter, e ensina escrita de ficção.

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