Há quanto tempo não decide ler um conto?
Em defesa do conto, três razões para os ler. E três sugestões de leitura.

Por João Valente.

Se há três coisas certas em Portugal são estas: os impostos, a morte e que os livros de contos não vendem. Pelo menos é o que os editores estão sempre a dizer. Assim, se gosta de ler um bom livro de contos saiba que a razão de a escolha disponível ser reduzida é sua, caro leitor. Se não gosta ou nunca experimentou, talvez esteja na hora de começar ou recomeçar a ler um livro de contos. Porque se não podemos deixar de pagar impostos e não conseguimos viver para sempre, podemos fazer um artigo em defesa dos livros contos. 

Em primeiro lugar deve ler livros de contos porque há contos que são muito bons. Tão bons que se tornaram clássicos da literatura. Vamos dar alguns exemplos: O Nariz de Nicolai Gogol, A Lotaria de Shirley Jackson, O Coração Revelador de Edgar Allen Poe, O Príncipe Feliz de Oscar Wilde ou Maria Lionça de Miguel Torga. 

A principal razão para se ler (e se publicar) um conto é que há contos que são muito bons. São as próprias histórias que pedem esse formato. Porque vão ao osso, porque o ritmo exige uma economia narrativa, porque funcionam pelo que não é escrito e por isso não precisam de mais páginas para nos transportar para lugares, dilemas e encruzilhadas que não conhecíamos. 

Depois, um conto tem uma dosagem certa de leitura diária. Pode ser lido na viagem de ida e volta para o emprego. Pode ser lido à noite antes de dormir. Pode ser lido até ao fim. E pode ser lido para nos fazer perceber que não gostamos daquele autor.  Um conto tem, no entanto, contra-indicações: pode ficar a boiar na nossa cabeça, como um bicho escondido atrás do matagal e que insiste em voltar. 

Por fim, um conto é resultado de um trabalho de equipa. Como assim, perguntará o caro leitor? O conto precisa da nossa imaginação. Sem ela, falta-lhe cor. A caracterização das personagens, o seu passado, o seu futuro são tantas vezes deixados ao critério de quem lê. O cenário, a localização e a época nem sempre são explícitas na escrita do autor. Tudo isso será construído por nós. Um conto pede que sejamos coautores daquela obra. 

Há quanto tempo não lê um conto? Dê um hipótese a este formato negligenciado. Há antologias por género, época ou autor à sua espera. Destacamos estas três, mas há muitas mais disponíveis.

Antologia do Conto Português (organização de João de Melo), Dom Quixote

50 contos de autores portugueses reunidos em meio milhar de páginas. A obra congrega escritos de Eça de Queiroz, José Luís Peixoto ou Camilo Castelo Branco. Com a vantagem adicional de ter direito a uma pequena biografia e bibliografia de cada um destes 50 vultos da língua portuguesa.

Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Porto Editora

Nem só de livros para adultos se faz o conto. Este volume junta sete histórias para crianças que pode e deve ler com os filhos. E, depois, descobrir que os contos para crianças também são escritos para os adultos. 

The Best of The Best New Horror, ed. Stephen Jones

Há três décadas que Stephen Jones nos traz uma antologia anual com o que de melhor se escreveu no terror. Esta antologia de antologias em particular é a seleção dos primeiros vinte anos de volumes e conta com Stephen King, Neil Gaiman ou Clive Barker como cabeças de cartaz.  

Quais são os seus contos preferidos? Conte-nos tudo na caixa de comentários.

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