Jesus e a teologia da doença
Poucas passagens na Bíblia dizem que a doença é castigo de Deus.

O surto de epidemias e pandemias proporciona sempre um pretexto para os fundamentalistas religiosos explicarem o que está a acontecer como castigo de Deus (li hoje de manhã um texto repugnante com esse teor sobre o coronavírus). «Pecados» vários da humanidade — ou de alguns sectores dela, normalmente minorias marginalizadas — seriam supostamente a «causa» da ira de Deus, que se manifesta sob muitas formas (como a Bíblia conta), desde dilúvios a guerras (a guerra é, na Bíblia, o método preferido de Deus para castigar o Seu povo: assírios e babilónios são instrumentalizados por Deus para castigar o povo judeu pelos seus pecados).

Ao contrário, porém, do que poderá parecer (se atendermos ao que dizem os fanáticos), não há assim tantas passagens na Bíblia que nos digam explicitamente que a doença é castigo de Deus. São basicamente duas:

1. «O Senhor atingir-te-á com tísica, febre, inflamação, delírio, secura, ardência e palidez, que te perseguirão até morreres» (Deuteronómio 28:22)

2. «O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave» (2 Samuel 12:15).

Uma passagem muito curiosa é Isaías 3:17, onde vemos uma gradação no entendimento deste problema nas três versões do Antigo Testamento. Na versão grega da Septuaginta, lemos «O Senhor rebaixará as filhas nobres de Sião». Na Vulgata, lemos «o Senhor tornará calva a cabeça das filhas de Sião». Mas no texto hebraico, o que se lê é que «o Senhor ferirá com sarna a cabeça das filhas de Sião».

Claramente, a versão grega procura apagar aqui a ideia da doença como castigo — embora sem apagar a própria noção de castigo. Diz somente que o Senhor «rebaixará» as pecadoras; mas não diz que o método de rebaixamento é a doença (alopécia, na Vulgata; ou sarna, na Bíblia Hebraica).

A passagem do livro de Samuel acima citada («O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave») é, para mim, das mais desagradáveis de toda a Bíblia (livro onde não há falta, como sabemos, de frases desagradáveis). Mas uma das vantagens de, no mundo cristão, o Antigo Testamento estar encadernado juntamente com o Novo é a realidade saborosa de muitas passagens do Novo Testamento contradizerem flagrantemente o Antigo.

No início do Capítulo 9 do Evangelho de João, os discípulos de Jesus (formatados pelo judaísmo em que tinham sido educados) perguntam ao Mestre, a propósito de um homem cego desde a nascença, se a razão da cegueira era o pecado dos pais ou o pecado do próprio cego (bom, atendendo a que o homem nascera cego, os discípulos ainda acharam que ele teria pecado logo à nascença! — ou ainda no ventre da mãe, quem sabe [mas seria anacrónico pensar em pecado original, visto que a teologia cristã ainda não o tinha inventado quando João escreveu o seu evangelho]).

Jesus dá uma resposta lapidar, que é um autêntico sismo teológico: «nem este homem pecou nem os pais dele» (João 9:3).

A continuação da frase de Jesus comporta depois alguns meandros de pensamento, que desaguam na frase famosa «enquanto eu estiver no mundo, eu sou a luz do mundo» (João 9:5).

Mas antes disso, houvera ocasião para uma frase que lemos diferentemente nas diferentes Bíblias; uma frase altamente expressiva e que tem tudo a ver com o momento que atravessamos.

A maioria dos manuscritos do Evangelho de João põe na boca de Jesus a frase «cumpre-ME realizar as obras de Quem me enviou». É assim que lemos na Vulgata: «me oportet operari opera eius qui misit me».

No entanto, no texto grego do Evangelho de João tal como o lemos no papiro mais antigo (e tal como ele se encontra corrigido no Codex Sinaiticus, a mais antiga Bíblia completa que nos chegou) — Jesus diz «cumpre-NOS realizar as obras de Quem me enviou».

Fica a dúvida: Jesus terá dito «cumpre-nos realizar as obras de Quem me enviou»? Ou «cumpre-me realizar as obras de Quem me enviou?»

A Bíblia favorita dos fundamentalistas protestantes (a King James Bible) afina pelo diapasão da Vulgata católica: «cumpre-me realizar as obras de Quem me enviou». A responsabilidade de fazer o trabalho de Deus está nas mãos de Jesus.

Mas em tempos de pandemia — e sabendo nós, pela boca de Jesus, que ela não se está a propagar para castigar os pecados de ninguém – faz-nos muito mais sentido aquele pronome grego (ἡμᾶς) que tão eloquentememente muda, no papiro mais antigo, o sentido da frase.

O trabalho de Deus está (também) nas nossas mãos. ἡμᾶς δεῖ ἐργάζεσθαι τὰ ἔργα τοῦ πέμψαντός με (hēmās dei ergázesthai tá érga tou pémpsantós me). «Cumpre-NOS realizar as obras de Quem me enviou».

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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