Livros para a quarentena #3, por Nélson Nunes
Quatro propostas de Nelson Nunes para ler em quarentena.

Open, Andre Agassi

Há sempre muitos arcos narrativos dentro de uma vida. Como se desenvolve uma carreira, como se desenvolvem as relações que temos com os outros, como se desenvolve a relação que temos com uma só pessoa, como se desenvolve o entendimento que temos de nós próprios…

A biografia de Andre Agassi é uma surpresa, até para quem gosta e acompanha o mundo do ténis. Assente na premissa de um singelo «detesto ténis» contraposta a um «adoro ganhar», percebemos com elevado nível de detalhe o caminho que é preciso traçar até se ser um campeão mundial da modalidade, dos primeiros anos de vida ao tortuoso fim que se tenta adiar até ao limite da dor. Sempre com muitas e muitas pessoas ao redor do atleta, cada uma com o seu interesse, tentando lidar com o seu feitio, digamos, peculiar.

A autobiografia de Agassi está traduzida para português pela Cavalo de Ferro e é das coisinhas mais fabulosas que se podem ler.

1Q84, Haruki Murakami

Este é um 3-em-1.

Murakami é o eterno apontado ao Nobel, por isso é de esperar que raramente desaponte. 1Q84 é a obra suprema do senhor, para mim. Uma distopia de realismo mágico como se precisássemos de ler sobre distopias quando estamos a viver uma, eu sei que, por estranha coincidência, nos diz isto na sinopse: «O ano de 1984, como eu o conhecia, já não existe. Estamos em 1Q84. A atmosfera mudou, mudou a paisagem. Tenho de me adaptar o quanto antes a este mundo-com-um-ponto-de-interrogação».

Em inglês, há edições de um só tomo; em Portugal, a Casa das Letras decidiu e bem parti-lo em três.

Elogio da Lentidão, Lamberto Maffei

Numa fase em que todos fomos obrigados a abrandar, ou mesmo a parar, e a ansiedade toma conta das nossas ideias, este livro pode revelar-se uma pequena salvação. Lamberto Maffei leva-nos numa reflexão curiosa e profunda sobre o que temos a ganhar com a lentidão.

Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson

Em 2005, eu era um rapazinho profundamente deprimido, por várias razões, mas muito por estar metido num curso de Gestão que odiava até à medula. Numa aula de Cálculo Financeiro aborrecida, o meu colega do lado falou-me de um livro cor-de-laranja que trazia consigo. «Estou a aprender montes de coisas e, ao mesmo tempo, farto-me de rir com as histórias que este gajo conta. Devias lê-lo, ias gostar». A princípio, liguei pouco, mas qualquer coisa que pudesse animar-me seria uma ilha paradisíaca naqueles dias soturnos. E, afinal de contas, eu sempre gostara de ler, portanto mal não faria.

Saí das aulas e comprei Uma Breve História de Quase Tudo. Comecei a lê-lo de imediato, e acho que cheguei a meio ainda antes de entrar em casa. Estava siderado com o estilo, a narrativa, os episódios.

No dia seguinte, as aulas passaram mais depressa, porque sabia onde ir de seguida: comprar todos os livros disponíveis de Bryson. Foi na Bertrand do Parque das Nações, uma memória tão cravada na minha mente que acredito que tenha sido aqui presa com uma pistola de pregos.

Hoje, quinze anos depois, sou devoto de São Bryson. Foi ele que me fez decidir mudar de curso e dedicar-me a contar histórias, foi ele que me fez querer construir uma modesta biblioteca, foi ele que me fez perceber que os livros salvam vidas.

Este é o melhor livro de Bill Bryson, mas, como já devem ter percebido, toda a bibliografia do homem vale ouro.

O autor

Nelson Nunes é escritor. Autor de livros como Preciosa (Planeta, 2019), Quem Vamos Queimar Hoje? (Vogais e Companhia, 2018), Isto Não é Um Livro de Receitas (Vogais e Companhia, 2017), Com o Humor Não se Brinca (Vogais e Companhia, 2016) e Quando a Bola Não Entra (Ideia-Fixa, 2015), começou pelo jornalismo na revista Focus, tendo passado pela investigação académica na Universidade Católica Portuguesa e pela assessoria de imprensa no Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Hoje é criativo na agência de storytelling True Stories.

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