Os canibais são sempre frugais?
A literatura carateriza os canibais como o exemplo máximo de frugalidade. Será por medo, vergonha ou parcimónia?

Por João Valente.

A cimeira europeia de julho criou um neologismo — os «frugais». A palavra não é nova, mas o significado que se lhe deu, neste tempo de novilíngua da política e gestão, substituiu a pouco comercial austeridade. Fomos à procura de frugalidade na literatura e descobrimos que está quase sempre ligada ao ato de se alimentar de si próprio ou daqueles que nos rodeiam. Por medo, considerações morais ou simples poupança. Sim, estamos a falar de comer o próximo… Este texto é para estômagos fortes. 

Provavelmente os autores sempre souberam que um canibal, ainda que cedendo aos seus desejos mais primários, deve atuar com parcimónia. Nem sempre terá à sua disposição indivíduos a quem ferrar o dente. Apesar de este frugalismo ser uma característica transversal à temática, ele acaba por ser tratada de forma muito diversa. Muitas vezes, os atos antropofágicos são oferecidos como causalidades. Acasos, mal-entendidos, pois de outra forma seriam demasiado desumanos para serem aceites. É o caso do conto Os Canibais de Álvaro do Carvalhal, que inspirou o filme homónimo de Manuel de Oliveira. Assim, numa primeira ocasião, a carne humana é digerida por engano. Junto a uma lareira repousam restos que se julgam ser de um assado de porco. No entanto, Álvaro de Carvalhal demonstra que a fronteira entre o acaso e a intenção é ténue, sobretudo quando se descobre que tudo nos é permitido. O trio sobrevivente deste conto, pleno de desventuras, descobre-se herdeiro de uma imensa fortuna. E é nesse momento em que, sabendo-se rico e todo-poderoso, se satisfaz num festim de carne humana de forma consciente. 

Em Tito Andrónico, de William Shakespeare, duas crianças são servidas numa tarte. Toda a peça é um jogo de paralelos entre um mundo civilizado (o império romano) e o mundo bárbaro (cujo representante é Tamora, rainha dos Godos). Mas Shakespeare mostra que as fronteiras entre esses dois mundos talvez não estejam assim tão bem definidas. Pode haver alianças entre os romanos e os bárbaros, se as circunstâncias assim o ditarem, e todos podemos incorrer em atos inimagináveis como o assassínio, a violação e o canibalismo, se o destino ou a vontade assim se impuser. 

Afinal, o que separa a civilidade da incivilidade? Herman Melville discorre sobre isso em Typee. Tratando de uma viagem por alguma ilhas da Polinésia, a dúvida sobre até que ponto este relato era autobiográfico ou ficcionado nunca foi plenamente esclarecida. A viagem do cidadão ocidental e a estadia na ilha de ‘bons selvagens’ é uma crónica de excessos, de um vale-tudo hedonista. Riscando normas que para os leitores de Melville seriam elementares, o autor pergunta-se sobre quem será o mais feliz? Os polinésios que viviam uma vida pura, ainda que com hábitos inaceitáveis aos nossos olhos, ou os mesmo polinésios depois de serem doutrinados e encaminhados pelo ‘homem branco’?

Se em Melville o canibalismo é coisa de selvagens, a personagem de Hannibal Lecter, criada por Thomas Harris, considera o consumo de carne humana como um requinte. O médico extraordinariamente inteligente e de gostos sofisticados, popularizado no cinema por Anthony Hopkins, vê-se obrigado a matar as suas vítimas para as comer. Não é que queira, mas, de outra forma, como teria acesso a essas iguarias? A criação de códigos morais é o que baliza a nossa vida e as nossas ações. Lecter não dispõe de qualquer código moral e, desta forma, não reconhece as suas ações como imorais. A pergunta que atravessa as páginas de Dragão Vermelho, O Silêncio dos Inocentes, Hannibal e Hannibal Rising é ‘o que somos quando não temos uma bússola desse tipo para nos guiar’?Para o final reservámos o conto Survivor Type, de Stephen King. Nesta história conhecemos o canibal mais frugal de todos. O protagonista (e única personagem, na verdade) é um médico que, perdido numa ilha deserta, se alimenta do próprio corpo, relatando as suas desventuras numa espécie de diário. É natural que opte por comer-se com alguma parcimónia: afinal, amputa-se para sobreviver. Não revelamos o fim do conto do mestre do terror, mas diremos apenas o seguinte: se a União Europeia resolver comer-se a si própria, as coisas não acabarão bem.

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