Os joanetes, uns saem, outros não, por Afonso Cruz
Toda a gente tem joanetes, só que uns saem para fora e outros não.

Os livros são uma sedentarização das ideias e não é por acaso que a escrita aparece precisamente quando surgem a agricultura e as primeiras cidades. São Paulo dirá mais tarde que a letra mata, o espírito vivifica. A deambulação e a divagação, ainda que exista na interpretação e na exegese do texto, ou mesmo na própria subjetividade inerente à palavra, ela é evidentemente muito maior na oralidade ou no pensamento, onde as mutações e as metamorfoses de uma ideia são constantes. Quando passamos um pensamento para o papel, fixamo-lo de alguma maneira. Pode tornar-se uma propriedade ou uma lei. Transforma-se numa espécie de estátua de uma ideia, a sua representação menos efémera, exigindo-se mesmo, em algumas situações, um castigo severo a quem adulterar um texto, desde livros sagrados a contratos comerciais.

Apesar da frase de São Paulo mencionada antes, a fixação do espírito nas páginas dos livros permite coisas únicas. Podemos ler o que um homem pensou há dois mil anos, ter na cabeça os mesmos pensamentos que Séneca teve ao escrever a Lucílio. Há uma justaposição separada por vários séculos que só é possível porque as palavras se fixaram através da escrita. Poderíamos argumentar que a oralidade permite um fenómeno semelhante, o que poderia ser verdade dentro dos limites da memória, mas não teríamos jamais a escolha que existe numa biblioteca. O conhecimento ficou realmente próximo, não só no que concerne ao espaço, mas também ao tempo. Podemos, assim, colocar séculos diferentes em diálogo, provando que, neste caso, é a letra que o permite.

A tradição judaica manteve uma luta constante contra a sedentarização do discurso, fazendo da interpretação do texto sagrado um método, uma espécie de retorno ao nomadismo. A guematria é um caso extremo desta inconformidade.

As letras e as palavras têm valor numérico e podem ser substituídas por outras com o mesmo valor. Isso permite uma quantidade assustadora de interpretações e de caminhos. A palavra escrita volta a ser nómada e o seu significado não fica preso a um território, à sinonímia, ao dicionário.

Esta procura de liberdade primordial está também patente na proibição de nomear Deus. Isso seria confiná-lo, defini-lo. Impor limites a algo inerentemente ilimitado. O pudor de representar imagens deve-se a isso mesmo. Dar um rosto implica negar todos os outros rostos concebíveis ou inconcebíveis. Apesar de a humanização de Deus ser um factor de proximidade entre Criador e criatura, não deixa de ser uma limitação, uma definição de um território. O cristianismo defende a ideia do rosto de Deus como algo importante na relação com os homens, mas independentemente das putativas vantagens ou desvantagens de uma antropomorfização divina, a verdade é que, para alguns povos ou culturas, existe uma dificuldade real na fixação, numa transformação definitiva, mesmo em algumas religiões profundamente ritualizadas.


Muitas das minhas viagens começaram pelos livros. Foram caminhos que saíram das folhas e se prolongaram para lá das estantes, das paredes da biblioteca. A viagem foi de certo modo uma corroboração da literatura, uma experiência diferente daquela que havia feito enquanto lia. Curiosamente, muitas vezes culmina na escrita, já que depois da viagem há o desejo ou a necessidade de solidificar a experiência, torná-la um objeto partilhável, materializar emoções, afetos, pensamentos, enfim, fazer da viagem um espaço imutável, parado, mas acessível aos outros, que com a sua própria experiência farão da leitura uma forma de viagem.


Para reencontrar uma memória perdida temos de ir fisicamente ao lugar onde a perdemos. Esse é um fenómeno que certamente a maior parte de nós já experimentou: levantamo-nos do sofá da sala e, ao abrir a porta para sair de casa, não nos lembrarmos do que íamos fazer à rua. Voltamos então atrás para recuperar essa memória e quando nos sentamos outra vez no sofá, faz-se luz. Este é o processo da viagem nómada, que relembra os seus mitos e a história dos antepassados por se deslocar fisicamente e ciclicamente aos lugares onde os acontecimentos se deram. Com a escrita, isso não é necessário, a história está sobretudo nas estantes. E esse é um dos motivos pelo qual muita gente, em que me incluo, fala em viagem quando se refere à leitura.

Contudo, uma vez num bar em Montevideo um homem falava das suas viagens, quando uma senhora sublinhou que havia outras formas de viajar, como ler, por exemplo, viajar mentalmente. O homem respondeu que também há muitas formas de higiene e que ler também é uma delas, mental, claro, mas tem muito pouco a ver com a outra, com água e sabão, e por mais livros que lesse, não descartaria o banho semanal.

Mais tarde em Lisboa, ao caminhar com um amigo, ouvimos uma conversa entre duas senhoras:

— Toda a gente tem joanetes, só que uns saem para fora e outros não.

Exatamente como as pessoas: umas saem para fora e outras não, diria o homem do bar de Montevideo.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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