Pintar como um porco, por Afonso Cruz
«Não é a cadeira que temos de pintar, mas o que sentimos ao observá-la.»

O meu filho mais velho, teria na altura oito anos, ao saber que eu tinha acabado de receber o Prémio Nacional de Ilustração, expressou a sua surpresa, dizendo à mãe: Como? se desenha tão mal! O meu filho mais novo, com cinco anos, acrescentou: Sim, e pinta fora do risco.

A noção de que a representação artística deve ser fiel ao que vemos e expurgar qualquer distorção emocional ou intelectual é antiga e remete sempre para questão da verdade e da objectividade, da consensualidade e da versão única. As crianças parecem concordar com Courbet e ficam impressionadas quando encontram num desenho semelhanças óbvias com o que vêem. Para elas, desenhar bem é representar “fotograficamente” (uso aspas porque a fotografia tem a sua parte de subjectividade, que é aliás o que permite o fotógrafo enquanto artista). Curiosamente, são os desenhos animados, muitas vezes caricaturas da realidade, que as crianças preferem como entretenimento. Nesse caso, não é a verdade dos sentidos que procuram, mas precisamente a sua distorção, que de algum modo amplia a realidade. Dá-lhe uma verdade que ela não revela sensorialmente, mas que sabemos existir. A maldade não se vê no rosto, mas podemos representá-la distorcendo a aparência do vilão até sentirmos temor ou asco. Aquilo que na realidade é invisível torna-se evidente. A caricatura é uma realidade mais completa, mas, para isso, precisou de se distanciar do naturalismo da representação. Munch, nas suas notas (Escritos, Edvard Munch), fala precisamente sobre este tema: “Os pintores de detalhe [realistas] consideram esta maneira de pintar não verdadeira, para ser verdadeira é essencial pintar uma cadeira ou uma mesa com precisão fotográfica, tal como a vemos. Consideram que representar uma atmosfera é pintar sem verdade.” Por coincidência, Van Gogh usou palavras semelhantes para descrever a sua pintura. Dizia que pintava mentiras para poder expressar uma verdade mais profunda, que não termina na aparência. Voltando às notas de Munch: “E é precisamente isto – somente isto – que dá um sentido mais profundo à arte. Não é a natureza [a realidade física] mas sim a vida humana, a própria vida, que precisamos de representar.

Uma cadeira pode ser tão interessante como um ser humano, mas para isso, deverá essa cadeira ser vista por um ser humano. É necessário que, de algum modo, lhe chame a atenção, e depois retenha também a atenção dos espectadores. Não é a cadeira que temos de pintar, mas o que sentimos ao observá-la.”

Gustav Wentzel, grande representante norueguês do realismo da época, disse, ao ver a pintura A Menina Doente, de Munch, que este devia ter vergonha, que pintava como um porco e que aquela obra era lixo, sem matéria ou substância. Wentzel achava que “uma cadeira é uma cadeira e só pode ser representada de uma maneira”. Munch, bastante mais cordato do que a sua némesis, critica Wentzel e demais seguidores queixando-se do desdém, por vezes violento, que os pintores naturalistas tinham por pinturas atmosféricas, querendo com isto dizer, mais pessoais, distorcidas pelas emoções, pelas lágrimas ou pelo estremecimento do riso. “Esses pintores”, disse Munch, “não percebem que uma cadeira pode ser vista de mil maneiras diferentes”. Se tivermos mil espectadores, teremos mil versões de uma cadeira, mas a mesma pessoa também poderá ter inúmeras versões da mesma cadeira, dependendo das circunstâncias e do humor com que a olha. O objecto é multiplicado e diversificado pela percepção externa. Há um centro, comum à maioria, que se aproxima de uma ideia platónica de cadeira, o objecto em si. Desse centro, dessa visão partilhada, começa uma relação dialógica com os espectadores, confluindo e misturando a cadeira observada com o olhar subjectivo de quem observa, transformando a cadeira comum numa cadeira única (que, por si, já é um acto artístico).

Mais à frente, Munch volta a criticar a ideia de que só existe uma representação possível e fiel à verdade, parecendo os artistas como Gustav Wentzel ignorar que a cadeira onde um familiar querido se costumava sentar, sendo igual a muitas outras cadeiras, tem a dimensão invisível que lhe emprestamos, e que esse sentimento é tão verdadeiro quanto a madeira, a forma, as cores. Sempre que olhamos com emoção, o objecto observado altera-se: “Essa sensação emocionante que faz com que se toque numa frase como se toca numa arma de fogo” (Notas Sobre el Oficio de Escribir, Jules Renard)

A realidade reage ao olhar, metamorfoseando-se. A atenção poética, a visão do artista, do amante, do invejoso, do bilioso, do místico, do leitor deslumbrado, perturbam a verdade comum, a solidez consensual dos objectos observados. Volto a citar Renard: “Observar a natureza, sim, mas há que manter a calma, como um caçador de tocaia. As coisas têm medo. A nossa emoção perturba a natureza. O mais pequeno acesso de humor assusta-a. Uma olhada demasiado curiosa e a vida detém-se.”

Munch satiriza ainda o naturalismo que Wentzel protagonizava, dizendo que “podemos admirar a sua habilidade e podemos dizer que não é possível fazer melhor. Logo, por isso mesmo, deviam deixar de pintar, uma vez que não conseguirão fazer nada melhor.”

É evidente que representar com naturalismo não é um defeito, a única coisa a evitar é a verdade única. Podemos, como Bernardo Soares ou Caeiro, preferir ou desejar a realidade como ela é, sem quaisquer leituras adicionais, denotativa, bem como podemos, pelo contrário, exigir da realidade a sua face invisível. Porque a realidade está não só mal desenhada como está também pintada fora do risco. Só não é aparente.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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