Poesia Grega, por Frederico Lourenço
Descubra mais sobre um poema de Safo presente no novo livro de Frederico Lourenço.

[Dia 26 de junho chegou] (…) às livrarias um livro que tem um lugar especial no meu coração: é a minha estreia como editor de textos gregos (pois nunca antes me tinha atrevido a estabelecer o texto de um autor grego por mim traduzido) e, por conseguinte, é a primeira vez que publico um livro de literatura grega em edição bilingue.

A base, da qual este livro nasceu, foi um trabalho que publiquei em 2006 e há muito tempo esgotado (uma antologia de poesia grega). Mas ao pegar, novamente, nestes textos para os rever e aumentar com novos poetas e novos textos dos poetas já representados, dei-me conta, mais uma vez, desta realidade fascinante: o estudo da poesia grega é sempre um «work in progress», porque o próprio TEXTO grego é um «work in progress». E porquê? Porque muitos destes textos só nos chegaram por meio de papiros danificados, descobertos fortuitamente em escavações no Egipto. Basta que se descubra um papiro novo de um texto já conhecido — e logo as edições existentes já ficam desactualizadas.

Entre a publicação da minha antologia antiga em 2006 e a nova edição que saiu hoje, aconteceu algo de muito excitante para estudiosos de poesia grega: descobriu-se um novo papiro de um poema já conhecido de Safo — poema que começava, anteriormente, com uma lacuna de três sílabas, porque o primeiro papiro descoberto estava danificado.

Os helenistas puxaram pelas cabeças durante décadas para tentar adivinhar o que Safo teria escrito nessas três sílabas em falta. Trata-se de uma invocação das Nereides, divindades marinhas. Alguém se lembrou de que, provavelmente, a palavra em falta seria, de facto, «marinhas». Outros helenistas discordaram e foram antes pela senda de introduzir o nome de Afrodite no poema, que, de acordo com essa reconstituição, começava com o nome da deusa cipriota «Cípris». Maria Helena da Rocha Pereira gostou desta opção. Eu próprio também gostei e, por isso, era com o nome «Cípris» que o poema de Safo abria na edição antiga da minha antologia.

Em 2014, foi publicado um papiro de Safo em que a primeira palavra do poema, pela primeira vez em mais de dois milénios, era claramente legível: πότνιαι, isto é, «soberanas», «venerandas». A partir desse momento, todas as edições de Safo e todas as antologias de poesia grega ficaram, de repente, desactualizadas.

Esta nova antologia inclui, à guisa de prelúdio, passagens de Hesíodo que gostei muito especialmente de traduzir (o Mito da Criação na «Teogonia»; o Mito de Pandora e o Mito das Cinco Idades dos «Trabalhos e Dias»). Apresenta também outra novidade, que são os fragmentos mais importantes do poeta alexandrino Calímaco, autor que se afigura de primeira importância para quem se interesse não só por poesia grega, mas também pela romana, já que os textos aqui incluídos tiveram uma influência marcada em Roma — e são fundamentais para a compreensão de Catulo, Lucrécio, Vergílio, Horácio, Propércio, Tibulo e Ovídio.

Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito é uma edição da Quetzal.

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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