Relendo as «Geórgicas» de Vergílio, por Frederico Lourenço
«(...) trata-se de um poema que nos propõe um retrato do mundo.»

Uma semana com dois feriados e uma ponte pareceu-me a oportunidade ideal para reler de fio a pavio uma obra que eu já não lia de enfiada há muitos anos: as «Geórgicas» de Vergílio. Sendo Vergílio – pelo menos desde 1987, o 3.º ano da minha licenciatura – o meu autor preferido de todos, a menos preferida das suas três obras (Bucólicas; Geórgicas; Eneida) sempre foi para mim o poema sobre uma temática de que não percebo nada (agro-pecuária) e em relação à qual há uma parte que me suscita reservas do ponto de vista ético (como vegano que eu seria por convicção íntima se isso não levantasse, na condução prática da minha vida, problemas atrás de problemas): a pecuária.

Afinal um feriado só (e ainda sem a ponte) bastou para fazer a leitura, porque, tendo começado ontem de manhã, o texto agarrou-me de tal forma que só consegui parar quando cheguei ao fim, já depois do jantar. E, tendo dormido «sobre» as Geórgicas, dou-me conta, hoje de manhã, dos muitos mal-entendidos que fui nutrindo sobre o poema, começando pelo equívoco de que se trata de um poema sobre agro-pecuária. Na realidade, trata-se de um poema que nos propõe um retrato do mundo. Um retrato para cuja concretização a poesia é instrumentalizada como aplicativo de «photo-shop». Porque se trata de um retrato distorcido. Já lá iremos.

Outro mal-entendido que a leitura de ontem desfez é a ideia de que a influência determinante nas Geórgicas é Hesíodo. Apesar de o próprio Vergílio salpicar aqui e ali a afirmação de que o seu poema é «aónio» ou «ascreu» (adjectivos que remetem para Hesíodo), não existe Hesíodo nas Geórgicas, além da parcial coincidência temática com o poema arcaico grego «Trabalhos e Dias». Hesíodo era importante (mais na teoria do que na prática) para os modelos alexandrinos de Vergílio e, por isso, há as pequenas referências ao poeta de Ascra incrustadas como «lip service». Mas a leitura das Geórgicas não me oferece qualquer confirmação de que Vergílio se deu ao trabalho de ler Hesíodo a sério. Na verdade, o texto grego cuja presença detectei repetidamente nas Geórgicas acabou por ser a Odisseia homérica. Essa sim, Vergílio andava a ler: a ler, a reler, a traduzir para latim, a transformar. O Livro 4 das Géorgicas é, em parte, uma reescrita do Canto 4 da Odisseia.

A seguir ao Homero da Odisseia, o grego tutelar das Geórgicas é o alexandrino Calímaco. Infelizmente, chegou-nos pouco da obra de Calímaco, embora o suficiente para percebermos que – tanto nas Bucólicas, nas Geórgicas como na Eneida – Vergílio elegeu como objectivo ser, em Roma, a reencarnação e a superação de Calímaco (objectivo esse partilhado, aliás, com os outros grandes poetas latinos do século I a.C., de Catulo a Ovídio). A estrutura das Geórgicas em quatro livros reflecte, sem dúvida, a estrutura em quatro livros do poema mais importante de Calímaco, os «Aitia». A sofisticação literária presente na textura poética das Geórgicas é retintamente calimaquiana: sendo um poema de tema campestre, não é um poema campónio sobre «a baca e o voi», do mesmo modo como não é um texto científico de agronomia. É um poema que, com requinte alexandrino, faz incidir sobre o mundo real uma «mundividência transfiguradora» (como Maria Helena da Rocha Pereira dizia de Píndaro). Quem escreve não é camponês, nem jagunço, nem agrónomo: é um «poēta doctus» que está a instrumentalizar a poesia para falar de poesia, certamente – mas não só: para nos propor uma visão da realidade que é curiosamente contrária à própria realidade.

Porquê? Porque as Geórgicas são, também, um texto de propaganda política. Trata-se de um poema vinculado a um regime, em que o nome «Maecēnās» (ausente das Bucólicas) está logo escancarado no segundo verso. É um poema que endossa o regime instituído por Octaviano (conhecido como Augusto a partir de 27 a.C., dois anos após a conclusão das Geórgicas) e que contribui activamente para a ideologia mitificadora acerca de Júlio César (homem que foi, na realidade, um carniceiro de populações e um autócrata), cuja morte é descrita no final do Livro 1 como desastre cósmico numa passagem muito admirada pelos latinistas, mas que a mim soa a lambe-botismo degradado pelos termos do seu próprio exagero (até o gado falou, coisa infanda!, quando César foi assassinado!: «pecudēsque locūtae / (infandum!)», G.1.478-9). A descrição dos prodígios cósmicos ocorridos quando César foi assassinado (não faltam os zombies de que falará mais tarde o evangelista Mateus quando da morte de outro JC, Jesus Cristo – esse sim, príncipe da paz) dá lugar ao lamento pelo facto de o actual César (Octaviano) ter de se preocupar com a pacificação de um mundo em guerra – sem menção, no entanto, do facto de a causa do mundo em guerra ser, na verdade, o próprio Octaviano.

A distorção da realidade que as Geórgicas operam está visível em vários planos. Talvez o acto mais arrojado de «photo-shop» que Vergílio faz incidir sobre o seu retrato do mundo real seja a eliminação da escravatura de uma realidade em que o trabalho agrícola era maioritariamente desempenhado por escravos. Tentando justificar o desaparecimento miraculoso da escravidão na realidade agrícola descrita por Vergílio, um latinista comentou que «there was nothing inherently poetic about agricultural slavery and thus it was an obvious choice for suppression» (M. Spurr, «Greece & Rome» 33, 1986, p. 175). Com efeito. Seria difícil encontrar uma poeticidade inerente à escravatura; mas é facto que ela está presente nas Bucólicas. Aqui, porém, saiu de cena. Quando Vergílio diz a Mecenas que o seu texto não é um «carmen fictum» (isto é, poema fictício: G.2.45), não podemos levar esta afirmação muito à letra.

Até porque, por vezes, o poeta diz uma coisa e depois o seu contrário. Nos famosos «Louvores de Itália» a terra italiana é elogiada por não ter serpentes (G.2.153-4), mas, se continuarmos a ler o poema a partir daí, encontraremos vários conselhos sobre como lidar com cobras, víboras e serpentes de vários tipos. É-nos dito, inclusive, que a «candida auis» (isto é, a cegonha) é odiada pelas serpentes (G.2.320). Mas esta é uma contradição de pormenor. A grande contradição das Geórgicas é outra. Está na relação do ser humano com a natureza, o que nos leva a uma questão que não podia ser mais actual no mundo de hoje.

As Geórgicas celebram, para todos os efeitos, o engenho humano na conquista do mundo natural. O homem descobriu como pôr a natureza ao seu serviço, domando cereais, plantas e árvores e caçando e domesticando animais, que ele cria e mata para seu proveito (não falemos nos açaimes de ferro colocados nos focinhos dos cabritos para eles não mamarem nas tetas das mães [G.3.399], nem do novilho espancado até à morte para que da sua carcaça golpeada nasçam abelhas [G.4.299-302], nem das asas arrancadas às abelhas… [G.4.106-7]).

No entanto, a legitimidade moral deste conceito da natureza moldada pelo homem em benefício do homem é refutada pelo próprio poema que a celebra, porque logo no Livro 1, à guisa de prelúdio ao que virá depois, Vergílio descreve o estado perfeito da natureza «ante Iouem», isto é «antes de Júpiter», o que, para os romanos, significava a realidade paradisíaca do reino de Saturno – a Idade de Ouro – em que não havia agricultura, nem comércio, nem navegação, nem guerra, nem caça, nem pesca: não havia necessidade de nada disso, pois a terra dava tudo espontaneamente e até o vinho era espontâneo (G.1.132). Só que depois veio Júpiter, que (a imagem não podia ser mais simbólica) pôs o veneno nas serpentes e ordenou aos lobos que caçassem presas. Então os homens aprenderam as várias artes. E «o trabalho ímprobo tudo venceu» (G.1.145-6).

Esta frase chave das Géorgicas merece consideração: «labor omnia uīcit / improbus». Em primeiro lugar porque é normalmente citada com a tradução «o trabalho tudo vence», quando o que o latim diz é «venceu». O trabalho humano (não lembremos os escravos ausentes do poema) tudo venceu, tudo conquistou. Mas que trabalho? O que define esse trabalho? O adjectivo «improbus».

Ora o problema é adivinharmos a acepção em que Vergílio empregou aqui «improbus». O sentido primário é «mau». Depois temos como sentidos secundários «perverso», «enganador», «cruel», «duro», «persistente». Claro que é menos problemático dizermos «o trabalho persistente tudo venceu» do que «o trabalho mau tudo venceu». O trabalho é algo de positivo, certo? Ou será «enganador», como Vergílio diz da caça, actividade em que o homem engana (em latim o verbo «fallō») os seres caçados (G.1.139)?

Quando cheguei ao final da leitura das Geórgicas, fiquei com a impressão de um poema extremamente perturbador e estilhaçante de certezas. O poema acaba em tom de lambe-botismo, quando novamente Octaviano (que queria tanto a paz, coitado!) é referido como vencedor nas guerras que leva a povos que se submetem de bom grado (absolutamente arrepiante a expressão «uolentīs / per populōs», G.4.561-2, que a língua portuguesa não consegue exprimir, mas que em inglês seria «willing subjects», isto é, súbditos que querem mesmo ser subjugados, decerto uma tara especial dos povos não-romanos ainda não conquistados por Roma).

Mas o problema vai mais longe. O poema redesenha, pois, a realidade com todos os gestos de «photo-shop» necessários para o regime de Octaviano sair bem na fotografia, ao mesmo tempo que dá um passo atrás relativamente ao racionalismo iluminado daquele que, na própria textura do poema em latim, foi a influência maior sobre Vergílio: Lucrécio. Lucrécio esse que criticou o obscurantismo da religião e celebrou a explicação científica da realidade. Vergílio dá a maior das facadas no programa de Lucrécio nos célebres versos em que o elogia e, logo de seguida, opera um acto maior de sabotagem no programa anti-obscurantista do seu antecessor, com a afirmação de que a explicação científica da realidade é uma de duas alternativas, sendo a superstição religiosa a outra alternativa, igualmente válida. E este detonar de Lucrécio acontece por meio de uma simples palavra em latim: «et» (aqui no sentido de «também»):

«Feliz o que pôde conhecer as causas das coisas
e todos os medos e o fado inexorável
subjugou com os pés, assim como o estrondo da morte avara;
afortunado TAMBÉM aquele que conheceu os deuses campestres…» (G.1.490-493).

«fēlix quī potuit rērum cognoscere causās
atque metūs omnīs et inexōrābile fātum
subiēcit pedibus strepitumque Acherontis auārī;
fortunātus ET ille deōs quī nōuit agrestīs…»

Estrondoso – mesmo.

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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