Segunda Oportunidade, por Afonso Cruz
«A vida pretérita parece-nos sempre mal vivida.»

Depois de ter sido perseguido pelos carabineros em Santiago, junto com um amigo, e de me terem queimado a cara com disparos de gás lacrimogéneo lançado a poucos metros, lembrei-me de que esse mesmo amigo, um ano antes, me tinha oferecido uma garrafa de mescal artesanal, destilado por um seu companheiro, cuja marca era: Llorarás. Não poderia ter sido mais profético.

Parti de Santiago para Punta Arenas, a maior cidade do sul do Chile, nos confins do mundo, onde passei uns dias mais tranquilos do que na capital: as manifestações eram bastante mais comedidas, mas, até onde tudo acaba, se luta nas ruas pelo fim de um regime desigual que preserva como pode (e pode muito) o abismo entre ricos e pobres.

Ventava, como sempre, mas era suportável.

Pensamos no fim do mundo normalmente como o fim do tempo. É raro pensarmos no fim do mundo como o fim da matéria ou do espaço. Houve tempos em que Portugal era o fim do mundo conhecido pelos europeus. Chegávamos ao Cabo da Roca e não havia mais nada, exceto um mar povoado por monstros.

A Patagónia não é o fim do mundo conhecido pelos europeus, é o fim de tudo, em vários sentidos. Para os indígenas da região, o mar passou a estar habitado por monstros quando foram dizimados por quem chegava. A história de um deles é absolutamente fantástica e haverei de voltar a este tema, que envolve diretamente Darwin e FitzRoy.

Quando ia visitar o museu de História Natural, de carro, batemos de frente contra um jipe que vinha em contramão (conduzia à inglesa, haveria de dizer um dos meus companheiros de quarto). A F., que ia à frente, foi a que sofreu mais. Foi operada duas vezes, tendo de ficar imobilizada cerca de sete meses. Ela foi para uma clínica (tinha seguro), enquanto eu fui para um hospital público, levado de ambulância porque tinha múltiplas lacerações resultantes dos estilhaços dos vidros, no rosto, no crânio, num olho, nas orelhas, nas pálpebras. Levei anestesia geral para ser cosido. O anestesista aproximou-se, estava eu na maca, depois de me ter sido feita uma série de testes para verificar se havia danos internos, apresentou-se e eu disse-lhe: «Olá, como está?»

«Melhor do que tu, obrigado», foi a resposta dele.

Acordei no dia seguinte num quarto com mais dois pacientes. O octogenário na cama à minha esquerda, a quem, conforme a sensibilidade dos enfermeiros, chamavam D. Juan ou Juanito, tinha diabetes. A perna estava a gangrenar e já lhe tinham cortado três ou quatro dedos do pé. Ao da direita, veterano del 78, conflito com a Argentina, pararam-lhe os rins e estavam há meses a drenar não sei quê (que estava constantemente a sair por um tubo). Tinha a barriga aberta e passava boa parte do tempo a ver, no telefone, westerns-spaghetti dobrados em espanhol e com o som no máximo. O enfermeiro que veio na segunda noite medir-nos a tensão disse que preferia os westerns americanos: «Nos italianos as balas nunca acabam, ao passo que nos americanos as personagens contam as balas.»

Contar torna real a ficção. Se um cowboy dispara sem contabilidade não é um herói credível.

Quando saí do hospital, nesse mesmo dia, atravessei o Estreito de Magalhães para a Terra do Fogo e dias depois juntei-me aos protestos em Punta Arenas.

Numa das noites jantei com um amigo, o António. Quando, sentados à mesa para comer, o pai agradeceu a Deus, o António perguntou: «Porque não ao pescador?».

O pai do António disse que o pescador não precisa, pois foi pago.

Argumentei defendendo o pai, uma vez que o sentimento de favor, de favorecimento, pode ser exteriorizado. Agradecemos. O facto de o sentirmos é uma presença que podemos chamar de divina, ainda que não seja necessária esta nomenclatura e, num contexto laico, não se usaria esta palavra, mas também é difícil arranjar outra para definir o momento. Não sabemos a quem nos dirigir, mas sabemos que temos à nossa frente algo mais do que peixe: temos amigos e amizade, familiares, uma série de circunstâncias que promovem essa gratidão. Podemos dizer que o somatório de factos a fazem surgir, mas se não estivermos consciente dela, como estava o pai do António, não a exteriorizamos. Deus, neste caso, não seria então apenas o somatório de factos (o que é sempre uma definição interessante: não como uma entidade, mas como as conexões possíveis entre entidades), mas a exteriorização da gratidão, o florescimento desses factos. Não adianta conjugá-los tal como não adianta amontoar tijolos na esperança de ter uma casa, mas em determinada geometria ou estrutura, a casa surge, tal como surge a gratidão ou, se quisermos, Deus.

Este sentimento é mais ou menos transversal a determinadas situações, mais dramáticas ou ritualizadas. Quando estava no hospital e saí de uma radiografia, a enfermeira disse que «teria uma segunda oportunidade». Ou seja, uma segunda vida. Este conceito é muito curioso. A enfermeira pressupôs que eu não teria tido uma vida realizada e que agora poderia viver a sério, devendo por isso estar grato. A vida pretérita parece-nos sempre mal vivida. Eu disse-lhe: «Não é uma segunda oportunidade, é apenas a vida que não me foi cortada com um condutor que guiava à inglesa». A vida está cheia de acidentes e, se quisermos, de segundas oportunidades.

O autor

Afonso Cruz, além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Estreou-se com o romance A Carne de Deus em 2009. Publica em diferentes géneros (infantil, romance, contos, não-ficção). Multipremiado (Prémio da União Europeia para a Literatura, Prémio Autores para Melhor Livro de Ficção Narrativa, Prémio Nacional de Ilustração, Prémio Literário Fernando Namora, entre outros). Tem a obra publicada em mais de 40 países (Inglaterra, México, Espanha, Colômbia, Canadá, Itália, Sérvia, Arábia Saudita e muitos outros).

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