Sexo e a Cidade (de Deus), por Frederico Lourenço
O fundamentalismo religioso nunca foi amigo da arte.

Quem conheça o Museu Arqueológico de Atenas reterá talvez na memória a imagem de uma cabeça de mármore, representando a deusa grega Afrodite. No século V da nossa era, fanáticos cristãos arranharam o sinal da cruz na testa da deusa do amor e, não fosse alguém ainda achar bela a deusa da Beleza, cortaram-lhe o nariz. Este acto de vandalismo ocorreu já depois de o cristianismo se ter tornado a religião obrigatória dos súbditos do imperador romano que residia em Constantinopla. Estátuas, templos e livros foram destruídos para sempre: a minoria pagã, cada vez mais clandestina, deve ter reagido a este fenómeno um pouco como nós reagimos à notícia dos vandalismos em Palmira e noutros sítios.

O fundamentalismo religioso nunca foi amigo da arte.

Em Atenas, grande parte das esculturas do Pártenon foram arrancadas dos frisos e atiradas ao chão, onde, mercê da sanha cristã, se estilhaçaram e se perderam para sempre. Este facto desgosta, ainda hoje, alguma opinião pública grega, que prefere repartir equitativamente a culpa pelos vandalismos infligidos ao Pártenon entre muçulmanos e britânicos; e desgosta sobretudo os sectores mais à direita na Grécia, que professam em simultâneo os dogmas nacionalista e cristão ortodoxo. Por isso, não me surpreende a notícia lida algures de que, quando se fez um vídeo sobre a história do Pártenon para o novo Museu da Acrópole com base na investigação de historiadores e arqueólogos, os breves minutos sobre a destruição das esculturas levada a cabo por cristãos fanáticos no século V acabaram por ser cortados devido à intervenção do ex- primeiro-ministro Antónis Samarás (isto numa anterior fase da sua vida política em que foi Ministro da Cultura). Seja verdade ou seja mentira: não vale a pena tentar reescrever a história.

Além dos actos de vandalismo praticados em obras de arquitectura ou estatuária, houve, após a instituição da obrigatoriedade do cristianismo, uma grande onda de vandalismo direccionada contra livros pagãos, onda essa que durou praticamente até ao século IX (quando se dá o «primeiro renascimento bizantino»). É devido a essa onda de destruição do património intelectual da Antiguidade grega que, das mais de 80 peças que Sófocles escreveu, só temos sete. É devido à mesma onda que, dos nove livros de poesia escritos por Safo, temos apenas um único poema completo. Perderam-se as obras completas dos filósofos Parménides, Empédocles e Anaxágoras. E não deixa de ser sintomático que, embora tenhamos ainda hoje manuscritos gregos com textos cristãos que datam dos primeiros séculos do cristianismo, os mais antigos manuscritos que temos de autores como Homero, Sófocles ou Platão são já do século X. Se, no seio do obscurantismo cristão, não se tivesse acendido essa luz que brilhou em Constantinopla em finais do século IX (quando se procurou fazer cópias dos textos clássicos antes que se perdessem por completo), não teria havido mais tarde Renascimento em Itália e o autor fundacional da nossa civilização teria sido São Paulo.

Felizmente, foi-nos deixada a possibilidade de optarmos, antes, por Aristóteles. Mas foi por uma unha negra.

A obra desse mesmo São Paulo tem uma particularidade curiosa, que é o facto de algumas das suas epístolas se encontrarem num manuscrito em pergaminho que deve ter sido copiado mais ou menos na mesma altura em que, na cidade de Atenas, os tais cristãos zelosos andavam a partir à paulada as esculturas do Pártenon. Esse manuscrito contendo as epístolas de Paulo está actualmente em Berlim e tem, pois, a particularidade de uma parte do texto ter sido escrito sobre folhas de pergaminho cujo texto original fora raspado, para se sobrepor o texto de Paulo. O texto original era uma preciosidade não menos maravilhosa do que as esculturas do Pártenon: tratava-se de duas páginas de uma tragédia perdida de Eurípides, chamada Faetonte. No século XIX, procurou-se aplicar um químico ao pergaminho para se tentar ler o texto de Eurípides, mas esses breves fragmentos da tragédia perdida são hoje ilegíveis. Não deixa de ser irónico que um texto precioso e raro (Eurípides) tenha sido raspado para se sobrepor outro texto mais que representado em inúmeros manuscritos e que nunca esteve em risco de desaparecer do património da humanidade (Paulo). Mas aquilo a que chamamos hoje vandalismo contava no século V como acto de fervorosa piedade. Não que, no século V, o texto de Paulo não estivesse à mercê de outro tipo de vândalos. As suas palavras não foram raspadas nem deitadas para a fogueira, mas foram, à sua maneira, vítimas de desfiguração. Pois foi no século V voltando agora ao tema da Afrodite com a cruz gravada na testa que se estabeleceu a doutrina do pecado original (gambuzino teológico com que Jesus nunca sonhara) com base na tradução errónea de uma passagem da epístola aos Romanos (5:12), em que Paulo escreveu duas palavras gregas que, erradamente traduzidas para latim por «in quo» (no qual), levaram Santo Agostinho e outros a designar Adão como o homem «no qual» todos os homens pecaram. Assim, todos nós hoje no mundo (e todos os vindouros que ainda não nasceram) pecámos no momento em que Adão pecou. Para cristãos tanto católicos como calvinistas, esta mácula original o sexo não é lavável por nada (a não ser eventualmente pelo sangue de Jesus e pela água do baptismo).

No entanto, a ideia de que o sexo é mau já andava no ar, não só nas Escrituras hebraicas como nas palavras do próprio Jesus que, como homem que chegara à idade adulta sem nunca ter casado, claramente partilhava do gosto pela castidade e pelo ascetismo que era timbre do judaísmo praticado pelos Essénios. O cristianismo primitivo herdou toda essa repugnância em relação às questões da sexualidade e, por isso, nos cânones do Concílio de Elvira (inícios do século IV), a mulher que mata a sua escrava à chicotada é só temporariamente impedida de comungar, ao passo que a mulher que pratica um aborto fica sujeita à proibição perpétua de comungar, «até mesmo na hora da sua morte», porque pecou duas vezes: pecou ao ter as relações sexuais que provocaram a gravidez; e pecou uma segunda vez no seu comportamento considerado infanticida.

Bom, mas não é no tema do aborto que me quero centrar, mas sim na imagem da Afrodite cristianizada, de nariz cortado e com a cruz gravada na testa. Os primeiros cristãos prezavam a virgindade acima de tudo (não esqueçamos o séquito de 140 mil homens virgens que acompanham o Cordeiro de Deus no livro de Apocalipse) e Paulo diz claramente que as viúvas deviam tirar o melhor partido do seu estado para a prática da castidade, NÃO voltando a casar; aliás, para Paulo, idealmente marido e mulher deviam viver juntos em virgindade perfeita, sem nunca terem relações sexuais. A premência da continuação da espécie humana não era urgente na cabeça dos primeiros cristãos, pois todos acreditavam que o mundo estava prestes a acabar. Contrariamente ao famoso sketch dos Gato Fedorento em que, anunciado para daí a minutos o fim do mundo, dois deles decidem não morrer sem antes terem tido a experiência «flip-flop» de sexo gay tanto activo como passivo, não fazia parte da mentalidade dos primeiros cristãos passar na cama o pouco tempo que sobrava pré-Apocalipse.

O cristianismo tem, desde o seu início, um problema com o acto sexual. E o problema levanta-se já ao nível do acto sexual supostamente incontroverso entre marido e mulher. Se aquele momento em que Adão e Eva experimentaram o seu primeiro orgasmo é o momento em que já pecaram todas as gerações que ainda não nasceram, o que não se dirá, então, de outras expressões da sexualidade? Já sabemos que Paulo vedou aos homossexuais o acesso ao reino de Deus. E também nos disse para não nos deixarmos enredar com a filosofia. Felizmente, o vandalismo cristão não apagou do património da humanidade a obra de Platão e, por isso, podemos ler, ainda hoje, aquilo que se diz no “Banquete” (181a) a propósito de Afrodite: não é o acto sexual em si, qualquer que ele seja, que é bom ou mau, certo ou errado, mas sim a intenção com que é praticado. Por isso fazer amor com alguém não é a mesma coisa que violar alguém. O pecado não mora nos nossos órgãos genitais; mora alhures. Matar uma escrava à chicotada parece-me incomensuravelmente mais grave do que qualquer pecado envolvendo órgãos genitais.

A igreja no século IV (e noutros séculos) não viu as coisas assim. Problema dela e de quem, hoje, queira livremente solidarizar-se com ela. Pois ao contrário do que era lei no século V, hoje o cristianismo já não é obrigatório.

Pela minha parte, prefiro Afrodite sem cruz gravada na testa.

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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