Tête-à-tête Literário, com Cláudia Andrade
Uma entrevista a Cláudia Andrade sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Cláudia Andrade responde a 11 perguntas indiscretas sobre livros e literatura.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Qual a sua livraria preferida?

A minha livraria preferida é a Ler Devagar, em Óbidos, quer o armazém de livros manuseados, quer a antiga igreja (que, como nota à parte, me constou que foi o diabo conseguir dessacralizar e tornar um centro cultural pagão). Mas, ambos os espaços, sem o enxame de turistas.

Ler é a melhor arma para a ignorância?

Acho que ler é a melhor arma para combater a iliteracia, assim como um hábito muito salutar,

e, para alguns indivíduos (eu incluída), estruturante.

A palavra ignorância remete-me a uma doença mais complicada, um conceito alargado, relativo, e de definição manhosa (que deixemos em aberto). Nesse caso, penso que o ovo nasce antes da galinha, que quem não é ignorante terá muito maior propensão para ler, e que a leitura não terá grande poder fora da esfera de quem a procura espontaneamente.

O que é para si um bom livro?

Para mim, um bom livro pode ser um livro esteticamente interessante, ou um que me obrigue a ponderar qualquer coisa de forma diferente, assim como um que me ponha a ansiar por saber quem matou, ou me faça rir a bandeiras despregadas. Um bom livro de filosofia ou de poesia será um que me deixa a coçar o couro cabeludo e a pairar numa agradável névoa metafísica. Resumindo, não me parece que um bom livro tenha definição.

Que clássico ainda está por ler?

Muitos clássicos ainda estão por ler. Mas um com o qual eu me debati várias vezes e não sei porquê acabamos sempre desavindos, é o Moby Dick. Custa-me chamar grande peixe a um mamífero, e magoa-me pensar em arpoá-lo, ainda que alegoricamente. Aborrece-me pensar que sou «aquela pessoa que não leu o Moby Dick até ao fim», e ainda vou a tempo. Por outro

lado, adoro o Bartleby do mesmo Melville.

O que não pode acontecer num bom livro?

É-me difícil decidir se devo interpretar a pergunta à luz do que poderia estragar para mim um livro que de outra forma considerasse bom, ou, pelo contrário, do que representaria para mim um mau livro. Opto por dizer, sabendo que não respondo à pergunta, que o pior dos livros (se não estivermos a falar do Mein Kampf ou algo análogo), nunca é assim tão mau. Não faz barulho como a má música, não nos entra pelos olhos adentro sem pedir licença como um mamarracho desagradável da arte plástica. Um mau livro é de uma presunção inocente, e pode sempre ser usado como base para copos ou calço para mesa.

Qual o livro mais importante da sua biblioteca?

Tenho esperança de que o livro mais importante da minha biblioteca seja um daqueles, demasiados, que eu compro compulsivamente e ainda não li. Um livro esquecido na base de uma das pilhas em cima das cadeiras (acabaram-se as prateleiras), que irá mudar a minha vida para sempre quando o ler. Digo eu.

Livros importantes para mim e localizáveis na minha biblioteca são (por nenhuma ordem específica e deixando dezenas de fora): A Viagem ao Fim da Noite, do Celine; O Tambor de Lata, do Gunter Grass; O Inominável, do Beckett; a poesia do Rui Belo, que tenho num calhamaço completo; As Naus, que foi o primeiro livro que li do António Lobo Antunes; Hannah Arendt, nomeadamente Responsabilidade e Juízo; entre outros.

Qual o personagem que não esquece?

Mais uma vez não consigo dar uma resposta única. Iago, que é um vilão estranhamente moderno e cheio de complexidade psicológica. O narrador do Fome do Knut Amsun, um magnífico representante do desespero humano. D. Quixote, que dispensa apresentações. E muitos, muitos outros.

Qual o melhor livro para ler em tempos de confinamento?

O melhor livro para ler em tempos de confinamento penso que será, assim como em qualquer

outro momento, aquele que nos dá na real gana. Mas talvez o À Espera de Godot do Beckett venha particularmente a propósito. E, eventualmente, um guia de reparações caseiras.

Qual o último livro que leu até ao fim?

O último livro que li até ao fim (terminei-o há uns dias), foi A última Porta Antes da Noite do António Lobo Antunes.

Qual o pior defeito de um escritor?

O pior defeito de um escritor enquanto escritor, creio que talvez seja, face ao sucesso, perder a incerteza (que acho uma palavra muito mais exacta do que humildade), necessária para o manter atento ao caminho literário que percorre.

Qual o capítulo mais feliz do seu percurso?

O capítulo mais feliz do meu percurso é este que vivo agora. Se isto soa a uma resposta zen, não é de todo minha intenção. É apenas a verdade. A despeito deste isolamento social, estou a viver uma boa conjuntura profissional, pessoal e literária numa sincronia inédita, e muito bem-vinda.

A autora

Cláudia Andrade nasceu em Lisboa. Uma das vozes emergentes no panorama literário português, é autora de vários livros de contos, entre os quais Elogio da Infertilidade, vencedor do Prémio Ferreira de Castro 2017, e Quartos de Final, vencedor do concurso Coleção Vertentes da Universidade Federal de Goiás (Brasil), em 2013. O seu conto Canção de Ninar (Escritório Editora, 2015) ganhou o concurso literário incluído no Motel X, em 2015.

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