Tête-à-Tête Literário, com Isabel Rio Novo
Uma entrevista a Isabel Rio Novo sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Isabel Rio Novo responde a 11 perguntas indiscretas sobre livros e literatura.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Qual a primeira memória que tem como leitora?

A de uma espécie de volúpia. Um pátio com sol, o silêncio da aldeia, eu com um livro no colo e o pão com geleia na mão, a ler enquanto merendava.

Qual o livro cuja leitura está constantemente a adiar?

Ulisses, de James Joyce. Mas ainda não desisti.

Relê ou não gosta de se banhar duas vezes no mesmo rio?

Adoro reler. Sou uma releitora compulsiva, regressando obsessivamente a livros que já conheço, como Amor de Perdição, O Estrangeiro, todos os de Machado de Assis…

Sublinha os livros, dobra os cantos das páginas, ou os livros são para se estimar sem dobrar as lombadas durante a leitura?

Sublinho, dobro, faço o que me apetece. E embora respeite quem não pensa como eu, o meu maior desejo é que os leitores se apropriem também dos meus.

Que livro gostava de ter escrito?

Tantos. Invejo sobretudo os autores que, pertencendo à minha família literária, ou achando eu que pertencem à minha família literária, são muito melhores do que alguma vez eu irei ser. Por exemplo, Dostoiévski e Tolstoi são ambos excelentes. Mas só invejo Tolstoi.

Uma casa sem livros é um jardim sem flores?

Uma casa sem livros para mim não seria casa. A questão das flores e do jardim nem se coloca.

Como é que organiza a sua biblioteca?

Se a organização da biblioteca cá de casa dependesse de mim, provavelmente seria um alegre caos. Felizmente, é o Paulo quem a organiza, por categorias, géneros e autores.

Qual a melhor maneira de forjar um leitor?

Enquanto mãe, professora e autora, adorava ter essa receita infalível. O que se pode fazer, penso eu, é proporcionar constantemente aos futuros leitores a oportunidade de o serem. Ter livros por perto, dar o exemplo da leitura, mostrar que a leitura é um prazer.

O que não perdoa que suceda num bom livro?

Não perdoo algumas coisas. Mas a pior é provavelmente que tenha palavras a mais. 

Qual o livro que mais ofereceu?

Deve ter sido O Diário de Anne Frank ou O Meu Pé de Laranja Lima. Associo qualquer um deles a etapas do meu crescimento e a momentos fundamentais do meu gosto pela leitura e acho que há uma fase na juventude em que todos os devemos ler.

Escrever é um superpoder?

Qual é a dúvida? Criar vidas, preenchê-las, prolongá-las, extingui-las, reatá-las… Conversar à distância com homens e mulheres com quem nunca nos cruzámos realmente… É um superpoder, e o melhor de todos.

A autora

Isabel Rio Novo, nascida no Porto em 1972, é doutorada em literatura comparada. É coautora da narrativa fantástica O Diabo Tranquilo (2004), com Daniel Maia-Pinto Rodrigues, da novela A Caridade (2005, Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes), do livro de contos Histórias com Santos (2014) e dos romances Rio do Esquecimento (2016, finalista do Prémio LeYa e semifinalista do Prémio Oceanos), Madalena (inédito, Prémio Literário João Gaspar Simões), A Febre das Almas Sensíveis (2018, finalista do Prémio LeYa) e Rua de Paris em Dia de Chuva (2020), escrito ao abrigo de uma Bolsa de Criação Literária atribuída pela DGLAB. Em 2019, publicou O Poço e a Estrada, uma biografia de Agustina Bessa-Luís.

Se quiser conhecer outros artigos do euleioemcasa.pt, subscreva a nossa newsletter. Não se preocupe. Não o vamos maçar todos os dias.