Tête-à-tête Literário, com Joel Neto
Uma entrevista a Joel Neto sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Joel Neto responde a 11 perguntas indiscretas sobre livros e literatura.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Qual a primeira memória que tem como leitor?

Estava na cozinha da versão anterior daquela que é hoje a minha casa e – diz-me a minha mãe – tinha quatro anos. A casa pertencia então ao meu avô. Ainda não tinha ocorrido o terramoto de 1980, que a arrasou, e a disposição das divisões era distinta. Não sei se o meu pai também estava na cozinha, ou sequer os meus avós. Não me lembro da minha irmã também. Mas tinha a Bíblia Sagrada nas mãos, aberta no Génesis, e, apontando uma letra de cada vez, ia dizendo os nomes delas. A minha mãe assinalou: “Já sabes soletrar. Isso chama-se soletrar.” E eu repeti: “Foi o meu avô que me ensinou.” E depois continuei ali a soletrar noite fora, com o resto da família entrando e saindo (é essa a memória que tenho), e inclusive muito depois de todos os mais velhos, revirando os olhos, já se terem ido enfiar na sala a ver a Escrava Isaura.

Qual é a sua santíssima trindade da literatura?

Entre os autores? Não é fácil. Talvez Melville, Graham Greene e Saramago. Deus é um tema central para mim, como sempre acontece com os ateus.

A que livro volta sempre?

A vários. Nos últimos tempos, volto muito a O Ano da Morte de Ricardo Reis. «Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo.» Há dias em que podia ser um lema para enfrentar a pandemia.

Sublinha os livros, dobra os cantos das páginas, ou os livros são para se estimar sem dobrar as lombadas durante a leitura?

Sublinho, dobro, maltrato um bocado. Depois guardo-os com essas marcas, relativamente bem catalogados, até chegar a altura de os ir buscar de novo e imprimir-lhes novas marcas ainda. Muitas vezes, rio-me do que as marcas anteriores dizem do homem que eu era. Outras, temo que já não haja salvação para mim.

Que lugar quis conhecer por causa de um livro?

A América atravessada de uma ponta a outra, por causa do Viagens com o Charlie, do Steinbeck. Não fiz o mesmo trajecto, mas procurei passar em todos os lugares que me tinham marcado na narrativa. Entretanto, um ano destes também vou querer ir às montanhas do Ngongo, por causa do África Minha, de Karen Blixen, que só agora – imperdoavelmente – estou a ler.

Sente remorsos de deixar livros a meio?

Não. Há muitos livros e o tempo é finito. Mas imagino-me a ter vergonha de alguém entrar na minha biblioteca, depois da minha morte, e encontrar tantos volumes apaixonadamente sublinhados até à página 200, ou 150, ou 100 – e a partir daí intocados. Suponho que seja falta de auto-estima.

Que livro gostava de colocar todos os portugueses a ler?

Os Miseráveis (lá está Deus de novo…). Equivale a um mestrado, no mínimo – mas daqueles de que se sai a saber ler.

Que livro gostava de ter escrito?

Gente Feliz Com Lágrimas (… e de novo). Agora é tarde de mais.

O que o acompanha sempre na leitura?

Uma esferográfica. E um par de óculos, agora (que remédio).

Quantas vidas precisaria para ler todos os livros que tem lá em casa?

Várias, parece-me. Mas de certeza não iria passá-las sem adquirir novos livros, pelo que a missão permaneceria incompleta. Talvez esteja aí o segredo da vida eterna.

O que o pode irritar num livro ao ponto de o deixar de lado?

O verbo irritar muda a equação. Não creio que algum livro me irrite – pelo menos algum a que eu chegue a dar uma oportunidade. Os que têm esse potencial ajudam, pelo menos, a sustentar a indústria editorial. Com o que rendem hão-de publicar-se outros livros, e talvez melhores – está tudo certo.

O autor

Joel Neto (n. 1974) é autor, entre outros, dos romances Arquipélago e Meridiano 28, bem como da série de diários A Vida no Campo, que lhe valeu o Grande Prémio APE de Literatura Biográfica. Nasceu na ilha Terceira, viveu vinte anos em Lisboa, onde escreveu para a maior parte dos grandes jornais e revistas nacionais, e regressou aos Açores em 2012, no intuito de se dedicar inteiramente à literatura.

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