Tête-à-tête Literário, com Paulo Moura
Uma entrevista a Paulo Moura sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Paulo Moura responde a 11 perguntas indiscretas sobre livros e literatura e sobre o seu mais recente romance, Hipnose.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Lembra-se do primeiro livro que leu?

Ao pensar nisso agora, noto um padrão que, afinal, é antigo. Os primeiros livros que me lembro de ter lido e gostado foram As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, As aventuras dos Cinco e dos Sete, de Enid Blyton, As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. Tudo aventuras. Reparo que, para mim, literatura e aventura sempre foram a mesma coisa.

Relê ou não gosta de se banhar duas vezes no mesmo rio?

O fascínio por um livro novo é sempre maior. Gostaria muito de reler, mas não tenho tempo.

O que aprendeu com os livros?

Talvez tenha aprendido a pôr um pouco (muito pouco) de ordem no mundo.

O que nunca deixa de fazer quando compra um livro?

Nunca vai logo para a estante. Mesmo que não seja para devorar já, anda umas semanas pelas mesas e sofás, pelo carro, pelas esplanadas, a ser mordiscado nas badanas, nas contracapas, nos índices, nos prefácios.

Qual o capítulo mais feliz do seu percurso?

Numa narrativa clássica, os capítulos felizes tendem a surgir no final. Na vida, imitamos os livros, sonhando com um futuro cada vez melhor, embora na verdade o nosso último capítulo deixe muito a desejar. No meu percurso, os melhores capítulos são os que roubei aos livros de aventuras, e incluem viagens, amores e combates.

Qual o livro mais importante da sua biblioteca?

Os dez que trouxe ontem (1 de setembro) num saco da Feira do Livro. Mas é verdade que há, nas minhas estantes, cantinhos especiais para Graham Greene, Joseph Conrad, Tom Wolfe, Norman Mailer.

O que não perdoa que suceda num bom livro?

Para mim, a divisão que importa é não entre livros bons e maus, mas em autênticos e falsos. O que não perdoo num bom livro é que seja falso, e num livro autêntico é que seja mau.

O que diria a um leitor que ainda não descobriu a sua obra?

Diria que quem procura exercícios de estilo ou virtuosismos literários está no lugar errado. A minha obra, tanto de não-ficção como de ficção, não é mais do que um testemunho. Uma espécie de relato permanente, emocionado e perplexo, febril e decerto muito imperfeito, misturado com reflexão, a preocupação do registo, o impulso de denúncia e o prazer de contar histórias.

O testemunho e o desejo de partilha de quem viajou por mais de 60 países, esteve presente em todas as zonas de conflito, cenários de guerra, crises, dramas, catástrofes, revoluções e encruzilhadas da História.

É a obra de alguém que viu o ser humano no seu pior e no seu melhor, que viveu situações extremas, correu riscos, passou fome, passou frio, ficou doente, foi preso, foi espancado pela polícia, teve armas apontadas à cabeça, dormiu na rua, em acampamentos militares, na linha da frente, em campos de refugiados, em cidades sob bombardeamento. Conviveu com as vítimas, mas também com os terroristas, os mafiosos, os genocidas, os ditadores, os traficantes, os torturadores, os mercenários, os violadores.

Por isso, eu diria isto a quem ainda não descobriu a minha obra: se quer manter a sua paz e a garantia de sanidade mental, no conforto do seu bairro e das redes sociais, não pegue nos meus livros. Só lhe trarão problemas. A esperança existe, mas é um caminho difícil.

Que livro nos pode salvar neste momento?

A ideia de um livro que salva é algo perigosa. As pessoas que acreditam nisso, geralmente, só leram um livro. Ficam tão impressionadas, que querem impingi-lo a todos, se necessário, através da violência. Nenhum livro nos pode salvar. Ler muitos livros torna-nos um pouco melhores.

Que conselhos daria a um jovem escritor?

Diria que, para escrever, convém ter assunto. Fazem falta artistas interessados pelo mundo. Artistas que investiguem, estudem, experimentem, descubram, e depois partilhem a sua visão.

Já há demasiados escritores fechados em casa, a escreverem uns para os outros. Porque se só há uma forma de aprender a escrever — ler —, também só há uma de ter alguma coisa para dizer — viver.

O que podemos esperar do seu novo livro?

O meu novo livro é um romance. As personagens e os acontecimentos são ficcionais, mas a sua semelhança com a realidade não é mera coincidência. 

Há um jornalista, há um hipnotizador que trabalha para o governo, uma politóloga com um projecto de diplomacia pessoal, um rapper com um pé no crime e outro no estrelato. A história passa-se em dois momentos: em 1993, nos primeiros entusiasmos pós-guerra fria, e em 2003, quando começa a guerra no Iraque.

São os dez anos em que surgiu a internet e os telemóveis, o terrorismo fundamentalista islâmico e a nova ordem mundial. E em que se desenvolvem, até à perfeição, as técnicas de hipnotismo usadas para construir uma ilusão colectiva, reduzir milhões à escravidão, provocar uma guerra…

O autor

Paulo Moura é escritor e repórter freelance. Tem feito reportagens em zonas de crise por todo o mundo. Fez a cobertura jornalística de conflitos no Kosovo, Afeganistão, Iraque, Chechénia, Argélia, Angola, Caxemira, Mauritânia, Israel, Haiti, Turquia, Ucrânia, China, Sudão, Egipto, Líbia e muitas outras regiões. Como repórter, ganhou vários prémios de jornalismo (Gazeta, AMI, ACIDI, Clube Português de Imprensa, FLAD, Comissão Europeia, UNESCO, Lettre Ulisses, Lorenzo Natali, etc.). É autor de 10 livros de não-ficção. Em 2018, vence a primeira edição do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, com o livro Extremo Ocidental: Uma Viagem de Moto pela Costa Portuguesa, de Caminha a Monte Gordo. Hipnose é o seu primeiro romance.

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