Pedro Vieira
Uma entrevista a Pedro Vieira sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Pedro Vieira responde a 9 perguntas indiscretas sobre livros e literatura.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Que livro gostou tanto que mais valia ter estado a rever no YouTube as conferências do Vítor Gaspar?

O Pós-Moderno Explicado às Crianças, do [Jean-François] Lyotard. Nunca o terminei, na verdade, o que se calhar significa que a pós-modernidade nunca irá terminar. E ainda dizem que os castigos divinos terminaram com o Novo Testamento.

Como é que fazemos para falar de livros que não lemos?

Temos várias hipóteses: roubamos citações a terceiros, lemos badanas ou procuramos informação na internet. Por exemplo, o Google garante-me que o meu volume preferido da Recherche é Sodoma e Gomorra. Go figure. 

Qual a sua santíssima trindade da literatura?

Em termos de autores, Saramago, Boris Vian, García Márquez; em termos de livros dos mesmos, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, A Espuma dos Dias, O Amor em Tempos de Covid. Cólera, digo.

Só pode ficar com um: os livros ou a música. Como vai ser?

Vai ser um mundo mais triste, mas a ter de escolher, escolho amputar a mão direita. Fico sem música.

Que achou do capítulo 4 do Ulisses?

«Calypso» é sem dúvida um dos meus capítulos preferidos de Ulisses, essencialmente por duas razões: porque Bloom dá leite ao gatinho, animal pelo qual tenho simpatia, e porque depois sai em direcção ao talho, para comprar um rim para o pequeno-almoço. Quem nunca?

Há algum livro que nos possa salvar neste momento?

Neste momento, só mesmo o livro de receitas. Médicas, não aquelas tretas da cozinha vegetariana que fortalece o sistema imunitário.

Relê ou não gosta de se banhar duas vezes no mesmo rio?

Nunca releio, essencialmente por duas razões: a primeira, é querer ler sempre coisas novas; a segunda, é reconhecer razão a Heráclito: não é possível banharmo-nos duas vezes no mesmo rio, e temo sempre que o segundo banho destrua as sensações do primeiro.

Qual o último livro que leu até ao fim?

A Forma das Ruínas, Juan Gabriel Vásquez. História, política, ficção, autobiografia, sobre um tema que nada me diz, mas que me prendeu durante centenas de páginas. Mérito da escrita escorreita e da mão firme do autor.

Que pergunta devíamos ter feito e, por manifesta incompetência, não fizemos?

«Qual é o seu NIB, para fazermos a transferência?»

Pedro Vieira nasceu em Lisboa em 1975, mas não se nota. Estudou Publicidade e Marketing na Escola Superior de Comunicação Social, mas mal se dá por ela. É social media manager, porque estas bios não passam sem palavras estrangeiras, e escritor. E faz desenhos e programas na televisão. É igualmente um frequentador de ruas, vielas e autocarros, o que lhe oferece muita matéria-prima. Casado, com um filho, sofre por vezes dos nervos. O seu mais recente romance é Maré Alta (Companhia das Letras, 2019). 

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