Tête-à-tête Literário, com Pia Mastrangelo
Uma entrevista a Pia Mastrangelo sobre livros e literatura.

Nesta rubrica, Pia Mastrangelo responde a 11 perguntas indiscretas sobre livros e literatura.

Livros e leitores. Fixações, obsessões, paixões assolapadas, ódios de estimação. Perguntas de algibeira, umas discretas, algumas indiscretas. Algumas perguntas de gosto duvidoso, outras a pedir provocação ou uma espécie de exaltação. O que falamos quando falamos de livros e aquilo que estamos disponíveis para revelar. Gente conhecida, anónimos, bons leitores, todos gente com opinião.

Como é que fazemos para falar de livros que não lemos?

Seria melhor não falar, não convém. Mas, se tiver mesmo de ser, poderíamos agarrar no título do livro e começar uma “história fantástica”, daquelas que o Rodari sugere na sua Gramática da Fantasia.

Qual a página que não consegue esquecer?

A primeira estrofe da primeira écloga da obra Bucolicae do poeta latino Virgilio: «Tìtyre, tù patulaè recubàns sub tègmine fàgi…». A imagem do pastor Títiro que descansa à sombra de uma árvore de faia, irá acompanhar-me até que a memória me falhe… mas é para isso que existem os livros!

Que livro proibido foi o mais apetecido?

A edição em papel do guião do filme Everything You Always Wanted to Know About Sex* (*But Were Afraid to Ask), de Woody Allen, escrupulosa e secretamente guardada pelos meus pais. Em criança lia-o para tentar perceber porque é que estava escondido, mas, quando cheguei à cena em que o Dr. Ross (Gene Wilder) se apaixona por uma ovelha da Arménia, sem perceber patavina, desisti.

Como é que organiza a sua biblioteca?

Eu desorganizo a biblioteca que o meu marido organiza por géneros literários e por línguas.

Se mandasse, que livro proibia?

Proibiria um livro que quisesse que viesse a ser muito procurado e lido. Por exemplo, O Poço de Cascina Piana ou A Guerra dos Sinos, dois dos setenta Contos ao Telefone de Gianni Rodari. Neles, o leitor depara-se com o evidente nonsense de qualquer razão que leva a um conflito armado ou até a uma briga entre vizinhos que acaba por tornar a vida mais difícil para todos.

Como escolhe os seus livros?

Quando não leio por trabalho, escolho muitas vezes livros por associação de ideias ou cruzamento de informações, o que acontece quando estou a ler outro livro, a ver um filme, a ouvir rádio ou a fazer uma pesquisa. Hoje, por exemplo, estava a preparar uma aula e reparei que ainda não tinha lido o livro de Primo Levi, Il Sistema Periódico. Imperdoável! Também gosto de escolher livros por autor.

Que personagem gostava de poder encarnar?

A Signorina Delfina, uma das personagens do romance Era Duas Vezes o Barão Lamberto. Uma menina muito bonita e inteligente que encara a vida de forma prática e ao mesmo tempo fantasiosa.

Como se via a viver num mundo sem livros

Faz ideia de quanto já gastou em livros? Não teria sido melhor dar uma volta ao mundo?

Como muitos leitores, considero que ler um livro é, de facto, embarcar numa viagem, portanto considero que já viajei muito e até poupei algum dinheiro. Quando tenho oportunidade, faço as duas coisas ao mesmo tempo e acontece-me ver os países que visito com os olhares, o humor e as atitudes das personagens que animam o meu livro.

Qual foi a sua maior desilusão literária?

Não tive nenhuma, até agora. Aliás, na minha opinião, para cada livro, para cada história existe um leitor apto a apreciá-los, num tempo e num espaço, mesmo que seja apenas aquele que os escreveu.

Se não fosse tradutora, o que seria?

Atleta profissional de natação sincronizada. Uma carreira que me passou ao lado.

A tradutora

Pia Mastrangelo nasce em Roma, Itália, no século passado, algures entre a queda do muro de Berlim e a Revolução dos Cravos. Estuda, até demasiado, e viaja bastante, mas nunca o suficiente. É tradutora, leitora de originais e atualmente docente de língua italiana no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Colabora regularmente com a Kalandraka Editora Portugal.

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