The falling man, por Filipa Melo
Filipa Melo sobre o O Homem em Queda, de Don DeLillo.

A 11 de Setembro de 2001, após os embates dos dois aviões nas torres gémeas do World Trade Center, Keith conseguiu escapar do interior de um dos edifícios. Então, caminhou para norte, entre entulho, lama e pessoas em fuga ou apenas sentadas, «absortas nos seus sonhos, a sangrar». Por onde caminhava «deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite». Ao «ronco distorcido da queda», suceder-se-ia a ansiedade, o pânico do futuro. E ninguém melhor do que o escritor nova-iorquino Don DeLillo seria capaz de os descrever. Assim: «Estes são os dias do depois. Tudo agora se mede em depois.» Keith é o protagonista de O Homem em Queda, de Don DeLillo.

Vários excelentes ficcionistas trataram já a tragédia do 11 de Setembro, entre eles Ian McEwan (Sábado, Gradiva), John Updike (O Terrorista, Civilização) ou Jonathan Safran Foer (Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, Bertrand). No entanto, a abordagem mais aguardada era a de Don DeLillo. Em 1991, no romance Mao II (Relógio D’Água), a personagem Bill Gray, um escritor, questionara premonitoriamente a supremacia do terrorismo sobre a literatura na capacidade de «alterar a vida interna de uma cultura». Para mais, DeLillo, nascido há 71 anos no Bronx, incorporara Nova Iorque em toda a sua obra e provara ser um dos melhores criadores de romances panorâmicos, atentos ao mínimo detalhe nos movimentos dispersos de uma multidão (como nas espantosas 14 páginas de descrição da sequência de acontecimentos na Dealey Plaza, aquando do assassinato de J. F. Kennedy, no romance Libra).

O Homem em Queda não defrauda as expectativas; é um romance brilhante, que traduz «o idioma nova-iorquino, cosmocêntrico, tonitruante e brutal» para o pânico universal da ameaça terrorista. DeLillo atinge a melhor forma da sua talentosa fluência de metáforas, descrições realistas e incidências psicológicas. Os movimentos da família de Keith em Manhatan são o epicentro de uma rede de íntimos «estilhaços orgânicos» da catástrofe: uma mulher que é «a história de uma pasta», crianças que vigiam obsessivamente o céu, a memória de um companheiro de poker, um terrorista em treino na Alemanha, um grupo de doentes que escreve a memória. Figuras em queda, numa «performance» radical.

O Homem em Queda, Don DeLillo, Sextante Editora, 255 págs.

SOL/ 08-12-2007 (in Coração Duplo)

A autora

Filipa Melo é escritora, crítica literária e jornalista. É autora do romance Este É o Meu Corpo (2001), do livro de reportagens Os Últimos Marinheiros (2015) e do Dicionário Sentimental do Adultério (2017). Assina crítica literária na revista Ler, trabalha como ghostwriter, e ensina escrita de ficção.

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