Um quinto de vogal, por Frederico Lourenço
Descubra, neste manifesto, o que o autor tem a dizer sobre a pronúncia de certas vogais nas várias línguas.

Uma coisa é certa: se ouvirmos alguém pronunciar a palavra portuguesa «medo» com o mesmo timbre de vogal com que começa o topónimo «Évora», sabemos de imediato que estamos a falar com um estrangeiro. Diremos o mesmo se alguém pronunciar o primeiro «o» de «ovo» igual ao primeiro «o» de «ovos». Temos, de facto, em português uma subtileza que adoro: o som do «é» de «Évora» não é igual ao «ê» de «Lamego»; o primeiro «ó» de «Óbidos» é diferente do «ô» de «Alvor». Gosto menos do último «e» de «Portalegre». Mas desse não vou falar.

[Dia 3 de Agosto] é o aniversário da morte de Elisabeth Schwarzkopf que, no seu auge, foi a campeã, juntamente com Dietrich Fischer-Dieskau (ambos na foto), daquilo a que Sophia de Mello Breyner Andresen chamou o «quinto de vogal». Expressão que entendo como referindo a precisão exacta na pronúncia das vogais, sobretudo as maravilhosas «é/ê» e «ó/ô», que também existem em alemão (daí a perícia de Schwarzkopf e Fischer-Dieskau na sua articulação). Como todos sabemos, estes valores não são sempre equivalentes no português falado em Portugal e no Brasil: no exemplo dado por Sophia, trata-se da palavra «coqueiro», cujo «ei» é pronunciado no Rio de Janeiro com o mesmo «e» de «medo» (em Portugal o «ei» de «coqueiro» é um ditongo). Os portugueses que tentam imitar o que pensam ser o sotaque brasileiro (na verdade há uma infinidade de sotaques no Brasil!) espalham-se sempre com a palavra «você», que em Portugal é dita com o primeiro «o» de «ovos», mas no Brasil com o primeiro «o» de «ovo».

Quando aprendemos uma língua estrangeira em que exista a diferença «é/ê» e «ó/ô», é sempre aí que vamos tropeçar. Em francês, felizmente, a diferença nos timbres de «e» está bem explícita: ninguém tem o direito de se enganar com uma palavra como «élève», por exemplo, onde os três «e’s» do francês estão claramente marcados pelo acento (ou ausência de acento).

Em italiano, o problema fia mais fino. Para um português, o «o» de «Roma» é fácil, porque é igual ao de «Roma» em português. Mas a partir daí, estamos no mar alto sem timoneiro. Muitas pessoas acreditam na ficção de que a língua italiana é toda «aberta» e, por isso, todo o «o» é «ó» e todo o «e» é «é».

Mas isso é um disparate. Torna-se divertido ouvir a primeira gravação de Herbert von Karajan da ópera de Mozart «Le Nozze di Figaro», feita em 1950 (Viena). Alguém explicou aos cantores austríacos/alemães, que não tinham ainda cantado os seus papéis em italiano, que as vogais italianas são todas abertas. O efeito torna-se cómico.

Porque, na verdade, o italiano está cheio dos sons «ô» e «ê». O problema, às vezes, é que as convenções de pronúncia são diferentes em zonas diferentes de Itália. Fischer-Dieskau contou uma vez como trabalhou o Rigoletto em Milão com um pianista italiano, que lhe ensinou o timbre exacto de todas as vogais. A seguir às récitas no Scala, foi cantar a mesma ópera em Roma, onde as pessoas no teatro lhe disseram que ele estava a cantar as vogais todas erradas — porque eram vogais milanesas. Da mesma maneira, alemães e austríacos pronunciam ao contrário muitos «ê’s» e «ô’s». E todos acham que estão certos.

Se todas as vogais de timbre «e» fossem pronunciadas em português com o «é» de «Évora», seria (na minha opinião) um empobrecimento tristíssimo.

Cá para mim, esta diferenciação entre «é/ê» e «ó/ô» que ouvimos em português e italiano (não me posso pronunciar sobre espanhol, que não sei falar) é uma herança do latim, que tem a sua vogal breve ĕ (como em «Évora») e a longa ē (como em «medo») e a vogal breve ŏ (como em «ovos») e a longa ō (como em «ovo»).

Não temos nenhuma garantia, é claro, de que assim era, porque não temos registos gravados dos antigos romanos a falarem latim. Mas parece-me lógica esta distinção sonora, que tive o privilégio de aprender na Faculdade de Letras de Lisboa na tradição legada por Francisco Rebelo Gonçalves.

Faz-me sempre impressão ainda hoje ouvir pessoas a pronunciar latim sem distinção de timbre entre ŏ e ō: fere-me os ouvidos ouvir «Rōmānōrum» pronunciado com a vogal ō igual ao primeiro «ó» de «Óbidos». E acho sempre estranho ouvir «rēs» como palavra homófona do primeiro elemento de «rés-de-chão».

Pode ser só «um quinto de vogal», como disse Sophia. Mas é só pronunciando os timbres certos que, a meu ver, as palavras (sejam portuguesas, italianas ou latinas) «recuperam sua substância total».

Sophia, como sempre, tinha razão.

O autor

Frederico Lourenço nasceu em 1963. Licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Lisboa. Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vencedor do Prémio Pessoa, traduziu as obras Odisseia e Ilíada de Homero (que também adaptou para um público juvenil) e encontra-se a traduzir a Bíblia do grego em vários volumes.

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