Uma entrevista à editora Bazarov
Conheça a Bazarov, uma nova editora independente criada este ano.

Bazarov é a mais recente presença no mercado editorial português. Fundada no Porto e focada em ficção literária e ensaios de grande formato, os títulos da Bazarov são facilmente reconhecíveis pelo seu design minimalista, que privilegia o texto e a tipografia.

A Bazarov marca a sua estreia nas livrarias portuguesas a 8 de setembro, com Censo, de Jesse Ball, e Ensaísmo, de Brian Dillon. No mesmo mês, dia 24, saem ainda A Tempestade, de Vladimir Sorokin, e A Lua, de Joachim Kalka. Para além do site da Bazarov, onde poderá ler contos e pequenos ensaios inéditos de autores nacionais e internacionais, a editora está também presente no Facebook.

Veja os restantes lançamentos agendados para o segundo semestre de 2020:

Ficção
8 de outubro: As Planícies, Gerald Murnane
22 de outubro: Os Fantasmas, César Aira
5 de novembro: Rio, Esther Kinsky
12 de novembro: Deserto Sonoro, Valeria Luiselli

Não-ficção
8 de outubro: Um Apartamento em Urano, Paul B. Preciado
22 de outubro: Uma Coisa Elementar, Eliot Weinberger
5 de novembro: Uma História Natural do Vento, Lyall Watson
12 de novembro: Teoria das Cordas, David Foster Wallace

O Eu Leio em Casa entrevistou Ricardo Costa, editor da Bazarov, para conhecer o mais recente projeto editorial português.

Quem é o Ricardo Costa e porquê Bazarov? 

O Ricardo é um leitor, primeiro isso. Depois, é alguém que está naquela idade estranha onde não sabe bem se é filho do seu pai ou pai do seu filho. Bazarov porque é uma personagem de um livro que gosto muito.

Como formou e quem faz a equipa Bazarov? 

A ideia de criar uma editora não é original – diz-se que há uma editora suíça que data do século XV, que foi a primeira e ainda vive – por isso, começamos logo a pecar na falta de originalidade. Apesar disso, a tentação de criar a editora existe desde os tempos das leituras mais sérias, na adolescência, talvez. Era uma ideia que existia e depois deixava de existir, e assim andou durante muitos anos. Mais recentemente, se calhar movido por alguma desilusão em relação àquilo que não conseguia ler em português, comecei a tentar perceber melhor como a poderia materializar.

Conheci o Guilherme Pires, que trabalhou com a 20|20 e é agora editor independente, e bastou um almoço para perceber que ele seria a figura que traria alguma ordem e bom-senso ao caos de ideias que trazia comigo. O Guilherme aceitou ser o coordenador editorial da Bazarov, compreendeu muito bem a razão da editora e assumiu a responsabilidade de contratar tradutores e revisores cuja qualidade do trabalho fosse irrepreensível, assim como foi fundamental para afunilar as dezenas de livros que eu queria publicar.

Depois surgiu o Andrew Howard para o design, que conhecia por ter desenvolvido a identidade da Ahab. Reunimos no estúdio dele e tentei explicar-lhe que me doía a cabeça (não naquele dia em particular, mas há muito tempo), que estava cansado de ruído e de imagens, que queria uma editora que não usasse imagens, fotografias ou ilustrações, que apenas falasse o essencial, que não tivesse outra cor além do preto e do branco. Pensei que recusaria o desafio por ser tão limitativo à criatividade de um designer, mas foi exactamente o oposto. Compreendeu o apelo e entusiasmou-se muito com a ideia de usar apenas a tipografia e a textura como identidade visual da Bazarov. 

Uma das grandes dificuldades das editoras parece ser a distribuição. Que canais irá a Bazarov privilegiar? 

Há outras, mas a distribuição é uma das questões sensíveis e talvez o maior desafio das editoras independentes em Portugal. Percebemos cedo que o modelo de contratação da distribuição reduz o trabalho da editora mas ameaça a sustentabilidade do negócio. Por isso decidimos assumir a distribuição e sermos nós o contacto de venda a livrarias independentes e grandes cadeias. Ao mesmo tempo, seguindo a tendência que já existia no Reino-Unido, por exemplo, e que a recente distopia pandémica trouxe também para Portugal, nota-se um aumento da compra do leitor nos canais de venda direta das editoras – site ou redes sociais. Esta é uma ameaça séria para as livrarias independentes, que muito lamento porque são um espaço fundamental de transmissão de conhecimento e convívio cultural na cidade, mas que não podemos ignorar e para a qual devemos estar preparados.

Este não deveria ser o pior ano de sempre para lançar um projecto editorial? Não o preocupa os números que o sector editorial tem apresentado nos últimos tempos? 

Se falarmos financeiramente, nenhum ano, desde há demasiados anos, é bom para para lançar um projecto editorial em Portugal. Emocionalmente, é o ano exato em que deixei de aguentar a culpa de ver o meu filho crescer num mundo onde as boas referências são tão maltratadas. Se pobre, pelo menos o meu filho crescerá com livros que o pai escolheu para que ele lesse quando chegar o tempo.

Em relação aos números que o setor tem apresentado nos últimos tempos, acho que são consequência de uma série de fatores aos quais não preciso de dar destaque.

O Ricardo vive entre Portugal e Inglaterra. De que forma essa experiência o ajudou a perceber melhor o mercado português e a projectar a Bazarov? 

Vivo mais em Inglaterra do que em Portugal, embora espere que a balança inverta nos próximos anos. Um dos grandes prazeres de Londres é entrar numa livraria independente e saber que está lá quase tudo o que interessa.

A Bazarov acontece em grande parte porque leio noutras línguas e não o faço por opção. Ao mesmo tempo, ver nascer dezenas de novos projectos editoriais todos os anos, pequenos mas cuidados, a alimentar um público que gosta de livros e espera por eles, é uma inspiração e quase uma pintura do que deveria ser o consumo de texto. Isso acontece substancialmente mais em Inglaterra do que em Portugal. Consigo nomear 20 pequenas editoras britânicas que sigo e em quem confio. Consigo nomear 3 em Portugal.

O que pode a Bazarov trazer de novo e de boas práticas ao setor editorial? 

Não existe espírito de missão, o projeto é demasiado virado para dentro, por isso não sei bem. Acho que, por princípio, pagar bem aos tradutores e revisores é importante. Tentamos pagar um pouco acima da média do mercado e no dia seguinte ao trabalho ser entregue. Não o vejo como novidade ou boa prática, apenas respeito pelo trabalho e pela pessoa, e enquanto forma de agradecimento por acreditarem em bons livros.

Tentamos também promover o texto em formato mais curto, que estará disponível gratuitamente no site. Convidamos regularmente autores nacionais ou internacionais para escrever um conto ou um ensaio, que ficará disponível para acesso geral no site. Já lá está, por exemplo, um maravilhoso micro-conto da Margarida Vale de Gato e um ensaio do H. G. Cancela sobre o texto e a palavra final. Outros estão a chegar.

Que espaço crê que a Bazarov irá ocupar?

Aquele espaço muito pequeno reservado a editoras que tentam não ceder a concessões comerciais, que vivem da travessura dos seus editores, que publicam o que querem publicar e ficam honestamente tristes se os seus livros não são lidos. Gostava que a Bazarov estivesse no mesmo espaço que, por exemplo, a BCF Editores ou a VS., que são dois projetos de que gosto muito, duas gerações de editores, onde se nota o gosto pela leitura e a vontade de partilhar bom texto.

Apresentado o projeto gráfico, o design, nomeadamente das capas, vemos uma editora diferente de tudo o que é o mercado. A Bazarov (também) será isso? Uma editora contra a corrente?

Não. Não incomodaria ser contra a corrente se houvesse corrente, mas o rio leva pouca água. A opção no design vem mesmo no seguimento daquela dor de cabeça, de estar cansado de tanta imagem a bater nos olhos, a toda a hora, tanto barulho. Literatura é texto. O lugar do texto é no papel do livro. Imagens bonitas estão em museus ou galerias ou na parede de nossa casa, não precisam de estar no livro também.

O que podemos esperar da Bazarov? O que irá publicar: quantos títulos, que géneros e temáticas?  

A Bazarov nasce no segundo semestre de 2020 com 12 livros, a ser publicados entre 8 de setembro e 22 de novembro. Em 2021 publicará 24 livros, 12 por semestre, que já estão a ser contratados e alguns até em tradução. O catálogo tentará sempre apresentar igual número de livros de ficção e de não-ficção. O ensaio é um género que me interessa muito. O critério de seleção dos livros é simples: gostamos muito, tem de ser lido.

O que nunca vai a Bazarov fazer? 

Normalmente esta pergunta persegue a resposta anos mais tarde, mas tentaremos que a Bazarov nunca ceda a pressões de qualquer género, que nunca deixe de retirar muito prazer daquilo que lê e que o filho do editor nunca decida começar a desenhar as capas dos livros.

De todo o catálogo que irá lançar, qual o título que não devemos mesmo perder? 

É difícil destacar alguma coisa porque tudo o que vamos publicar é importante para mim. Mas considero uma honra e um dever publicar os ensaios do Eliot Weinberger, cujo primeiro volume chega em outubro, que são qualquer coisa difícil de definir, entre entrada de Wikipédia e poema.

Depois, acho que autores consagrados como Gerald Murnane ou César Aira serão uma parte importante no catálogo e naturalmente merecerão interesse, autores jovens mas poderosos como Jesse Ball ou Valeria Luiselli também. A coleção de textos do David Foster Wallace sobre ténis é provavelmente a melhor literatura de desporto escrita nos últimos 30 anos. Isto é muito difícil e injusto. Tudo é bom, tudo é sol.

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