Variações do medo, por Filipa Melo
Filipa Melo sobre uma obra de John Franklin Bardin.

Duzentos anos após o nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o terror está de volta. De culto, a ficção de terror é, talvez, o género que mais impele cada leitor para a construção de uma biografia de leitura, a partir de características e motivações psicológicas intransmissíveis. Ainda assim, é inegável a universalidade da experiência «maravilhosa, terrível e venenosa» (segundo Oscar Wilde) da leitura de O Poço e o Pêndulo, de Poe, ou a de A Volta do Parafuso, de Henry James. Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de John Franklin Bardin, é um dos expoentes máximos de perícia na criação de uma atmosfera ficcional terrivelmente perturbadora. A escritora Ana Teresa Pereira alerta, no prefácio desta «história de música e de loucura»: «Os que conseguirem ler este romance não o esquecerão tão cedo. (…) Não sei se recuperamos [da sua leitura].»

Trabalhando a película fina que separa o desejo de uma racionalidade previsível da queda livre num universo de alucinação, John Franklin Bardin (1916- 1981) assinou dez thrillers psicológicos. Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de 1948, é, com unanimidade, o melhor dentre eles. Uma narrativa em ligação estreita com a ária e 30 Variações Goldberg para cravo, de Bach, ao som das quais o escritor compôs o original em apenas seis semanas. O ponto de vista é o de Ellen, uma cravista que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica onde esteve internada durante dois anos. Quando procura a chave para o seu cravo, para o regresso à interpretação e aos palcos e a uma vida ‘normal’ com o marido, Basil, Ellen reeencontra a música e a loucura – personificada no seu alter ego maquiavélico, Nelle.

Que o Diabo Leve a Mosca Azul merece uma primeira, uma segunda, uma terceira leitura, para total impregnação dos vários desenvolvimentos do que poderíamos chamar o acorde psicopatológico de Ellen. Aqui, o segredo da tensão provocada no leitor não está na repetição obsessiva e claustrofóbica. Como na música, Bardin explora antes a ideia de variação, de uma medida de repetição (a racionalidade) usada apenas como fundo de reconhecimento para salientar a surpresa de elementos novos (a loucura). A suspensão ocorre materializada em palavras físicas e ferozes. Como uma garra apertada ou um refrão de sons consonânticos.

Que o Diabo Leve a Mosca Azul, John Franklin Bardin, Relógio d’Água, 173 págs.
SOL/17-06-2009 (in Coração Duplo)

O autor

Filipa Melo é escritora, crítica literária e jornalista. É autora do romance Este É o Meu Corpo (2001), do livro de reportagens Os Últimos Marinheiros (2015) e do Dicionário Sentimental do Adultério (2017). Assina crítica literária na revista Ler, trabalha como ghostwriter, e ensina escrita de ficção.

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